Thursday, December 14, 2006

Da qualidade de um texto enquanto legibilidade

Saber ler é uma habilidade muito ampla. Ler é reunir palavras e tirar delas o seu sentido, mas múltiplos sentidos podem se esconder nas mesmas palavras. Alguns autores buscam a complexidade intencionalmente - segundo Schoppenhauer, têm como objetivo disfarçar o fato de não terem nada de interessante a dizer. Quem tem algo a dizer - e deseja ser compreendido - busca o máximo de clareza e o mínimo de palavras.

Porém, mesmo escritores (que se julgam) claros sofrem com a falta de compreensão de seu trabalho. Entra aí o outro lado da escrita - o leitor e sua vontade de compreender.

Num mundo onde existem milhares de escritores reconhecidos, que vendem um bom número de cópias ainda em vida, nos quais podemos esperar encontrar um conteúdo inusitado, interessante, curioso, - como podemos entender que séries inteiras de livros semelhantes sejam vendidos? Por exemplo, Operação Cavalo de Tróia e suas intermináveis continuações. Será tão difícil encontrar um bom autor, a ponto de justificar a fidelidade a um único artista, havendo tantos e tão variados no mercado?

Aí é que está: o mercado é formado pelo grosso das pessoas, pelas maiorias, e a maioria não quer desafios intelectuais. A maioria não quer criatividade, não quer novidade, não quer aventuras. A maioria quer recostar a cabeça com tranqüilidade no mesmo lugar de sempre, e deliciar-se com o mesmo, passar o tempo de modo seguro, previsível, tendo tudo sobre controle. O desejo de controle é o novo vírus do comportamento - ou talvez nem tão novo assim.

Os textos são considerados legíveis na medida em que não tragam novidades ao leitor. Pode parecer absurdo, mas muita gente lê o que já sabe, apenas para ajudar a suportar a passagem do tempo, que de outra forma seria intolerável. Assistem a programas como Zorra Total, onde as piadas são sempre as mesmas, e as pessoas já sabem do que rirão e do que não. Lêem livros espíritas ou de auto-ajuda onde casos (ligeiramente) novos vêm reiterar os mesmos preceitos morais. Mas se o leitor já conhece a moral da história, para que lê-la? Apenas para suportar a passagem do tempo num mundo tão repetitivo.

Parece um raciocínio circular e absurdo, já que a repetitividade do mundo vem da própria falta de inovação das pessoas que repelem a repetitividade. Mas a circularidade e o absurdo me parecem as características mais gritantes da história. Pouquíssimas pessoas lêem para variar, para se instruir ou se acostumar a um ponto de vista até então desconhecido. Por isso autores de best-sellers fazem fortuna vendendo vários outros livros depois do primeiro. E logo depois caem no esquecimento, quando surge outra pessoa para ocupar o primeiro plano da opinião pública.

Voltando à legibilidade, Nietzsche é um exemplo instrutivo por dois motivos: primeiro, ele derrubou inúmeros mitos com suas perspectivas contudentes e sua prosa ferina, influenciando decisivamente áreas do pensamento como o existencialismo, a filosofia analítica e a psicanálise. Mesmo assim, continua sendo debatido apenas em círculos acadêmicos restritos, não chegando a afetar o dia-a-dia das sociedades que tanto desejou mudar. Segundo, seus estudos de filologia clássica, aliados a uma inteligência excepcional, funcionaram como uma viagem ao redor do mundo, extirpando seus preconceitos e forçando-o a ver além do pensamento único de seus contemporâneos.

Se Nietzsche soubesse dos avanços que seriam alcançados nos transportes de longa distância e nas telecomunicações, imagino que ele previria uma relativização constante da moral, como sempre insistiu, graças às viagens e ao conhecimento mútuo entre os povos. Infelizmente não aconteceu nada disso. As pessoas viajam apenas para onde sabem que encontrarão um McDonalds, onde nenhuma diferença cultural gritante as fará perder o equilíbrio, e ainda assim voltam para casa correndo, mortas de saudade do lar onde precisavam ler do mesmo para tolerar o cotidiano. Talvez na era pré-industrial um viajante que fosse a cavalo para um vilarejo a cinco dias de viagem aprenderia mais sobre o mundo do que 90% dos viajantes que cruzam o Atlântico hoje.

Então, o que é a qualidade de um texto? Expôr um novo ponto de vista, após uma demorada análise de um mundo diferente (seja pela filologia ou pela demorada imersão física em outra cultura), ou escrever o que o leitor espera ler, num mundo dominado pelo mercado, pelos números e pela repetição?

Não receber tantos visitantes em meu blog, quem sabe, pode afinal ser um motivo de orgulho.

7 Comments:

At 8:28 AM , Blogger Chico Prosdócimi said...

É por isso que não leio mais Dawkins, por exemplo, tenho a impressão de já saber tudo o que ele vai falar e, assim, ele não mais me interessa, embora seja um ótimo escritor e preste um serviço à sociedade com suas publicações.

Já Saramago acho diferente. Não me canso de ler novos livros dele, pois que ele está sempre renovando-se e discutindo coisas diferentes, ainda que numa mesma forma.

De qualquer forma, é importante ser entendido pelos leitores, enquanto escritor. Além disso, não generalizaria tanto. Podem haver best sellers de conteúdo bom, inteligente e interessante.

De outra forma, ter poucos acessos no blog não significa necessariamente que se escreva diferentemente da massa; isso pode ser apenas um tipo de auto-engano que aumente seu ego e te faça se sentir feliz. Mas, se vc quer pensar assim... pense. Afinal, o Rafael já disse uma vez: "acreditamos no que nos faz felizes".

 
At 9:26 PM , Anonymous Marco said...

Rodrigo, tenha certeza que os (porventura) poucos leitores que você tem são bastante fieis, e é um prazer descobrir a cada vez que acesso seu blog que você está escrevendo cada vez melhor e sobre assuntos tão diversos!
Estou ensaiando a tempos escrever cronicas regularmente, mas não tenho conseguido, talvez pela pressão psicológica de estar finalizando minha tese. Felizmente isto vai acabar logo...
Eu concordo com você que parece que a maioria das pessoas quer ler apenas o que já sabe que vai ler, o que vale para a música, o cinema, a tv, menos para o teatro. Ontem houve uma discussão sobre como as artes visuais também estão se transformando em indústria cultural.
Há também uma história engraçada, de uma amiga, na ocasião de sua mudança: os rapazes da transportadora, que embalam tudo de modo conveniente não sabiam como lidar com livros, porque em nenhuma mudança que faziam havia este tipo de objeto...
Felizmente minhas estantes estão cheias, abarrotadas, e meu prazer é descobrir coisas, sensações e percepções novas!
Um abraço e bom fim de semana!

 
At 11:55 AM , Blogger Rafa Pros said...

Adorei isso : "as pessoas viajam apenas para onde sabem que encontrarão um McDonalds, onde nenhuma diferença cultural gritante as fará perder o equilíbrio, e ainda assim voltam para casa correndo, mortas de saudade do lar onde precisavam ler do mesmo para tolerar o cotidiano."
Isso é impressionante, a cada dia, aumentamos a distancia do outro que não o outro do mesmo. E com relação a essa questão de viagens é interessantissimo. Conheço pessoas que julgam a qualidade de um lugar pelo numero e tamanho de shopping centers. Isso é foda. Tava conversando com um amigo meu turismologo, que falou que a proposta da estrada real, tem sido concebida com uma estrutura cinco estrelas, paulista, que joga as pessoas que moram nos arredores a margem do processo. Ou seja, me interessa viajar pela estrada real se o serviço for primeira classe...
Quanto a qualidade do texto, e lembrando que vc falou do homi vai essa de Gaia Ciencia...
§381. A questão da compreensibilidade -
Não queremos apenas ser compreendidos ao escrever, mas igualmente não ser compreendidos. De forma nenhuma constitui objeção a um livro o fato de uma pessoa acha-lo incompreensível: talvez isso estivesse justamente na intenção do autor- ele não queria se compreendido por “uma pessoa”. Todo espírito e gosto mais nobre, quando deseja comunicar-se, escolhe também os seus ouvintes; ao escolhe-los traça de igual modo a sua barreira contra “os outros”. P.284

 
At 2:11 PM , Blogger Rodrigo said...

Bem, o bigodudo realmente tinha um problema sério em ser compreendido na sua época. Quanto a isso eu fico com o Dawkins, prefiro ser entendido por ambos, o leigo e o especialista - mas tem horas que talvez não queira mesmo ser muito explícito...

 
At 3:43 PM , Blogger Chico Prosdócimi said...

Ah, bicho. Essa frase do Nietzsche aí é muita carocha. Agora entendo pq várias vezes não entendo os textos dele. Se vc escreve algo que não seja pra "uma pessoa" entender, vira um texto tipo esses (pouquíssimos objetivos) de ciências humanas onde se fala, fala, fala... e não se fala nada. Se um texto não busca a exposição de idéias claramente compreensíveis, eu não tenho interesse em lê-lo.

Eu mesmo poderia escrever milhares de coisas sem, sentido, que possivelmente sejam o cúmulo de algo excessivamente abstrato e sem quantia fixa que, ademais, nunca se sabe onde vai chegar ou se, quiçá, um dia chegará a algum ponto tão longe do céu e do inferno que aos poucos moldará a direção de nossos memes dentro de uma determinada via em especial.

Ou não, como diria Caetano Veloso.

Não dou valor a um texto que não seja feito para um ser humano entender! Quem escreve buscando a não-compreensão direta das entidades "palavras" e "frases", está gastando o tempo do leitor e o desrespeitando, sem qualquer sombra de dúvida.

 
At 9:50 AM , Blogger Rafa Pros said...

Primeiro não é pra ninguem entender, a frase do Nietzsche diz que é pra algumas pessoas entenderem...não ser compreendido por "uma pessoa" "determinada pessoa"...rola uma carocha sim, mas também não (como mais uma vez diria o Caetano..hehe)

Segundo, é claro que nós entendemos nossos textos (ciencias humanas)não todos, Lacan por exemplo ninguem entende, mas todo mundo finge. ...Entender ou não entender não é simples questão de compreensibilidade do texto.. uma criança de 10 anos escrevendo as coisas mais simples da vida em russo não facilitará em nada minha compreensão..assim como um fisico de estados sólidos escrevendo em portugues...ou um bioinformata...idioma (no sentido estrito) e "idioma" (no sentido metaforico) são fundamentais para a compreensão.

é claro que quem escreve para ninguem entender desrespeita e sacaneia o leitor. Assim como quem não explica as premissas, as bases de seu pensamento. Entendo que a compreensao não é algo abstrato, mas sim algo embasado em algumas concepções.
Se vc pensa que existem construções simbolicas e culturais que determinam formas do ser humano agir e que as diferentes construções determinam diferentes formas de agir e disputam entre si a dominação de uma sobre a outra; ou se vc chama isso tudo de meme, e pensa que isso se espalha da mesma forma que os genes...são coisas importantes de serem ditas e diferenciadas, por mais confuso que possa parecer, a principio...
Então essas duas orientações de alguma forma representam dois idiomas de vários sobre o mesmo tema. Podem até ser complementares, ou não.
Mas também sei lá.

 
At 2:27 PM , Anonymous Anonymous said...

intiresno muito, obrigado

 

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