Monday, December 04, 2006

Os fatos, a ciência e a política

Fatos, ciência, política.

"Contra os fatos não há argumentos."
"Penso, logo existo." Mas e os fatos?
Existem fatos objetivos? Ou podemos ser todos solipsistas sem mentir?

Aquele que conhece os fatos tem poder, pois tem informação.
Aquele que conhece a ciência tem ainda mais poder, pois a ciência é a generalização dos fatos para a compreensão e previsão dos fatos futuros.

Existem dois raciocínios semelhantes, hoje em dia bastante disseminados:

1) um preconceito, misturado com descaso, contra a ciência, contra o seu método reducionista, que busca - com imenso sucesso - leis naturais simples ocultas na complexidade dos fenômenos individuais. As pessoas que nutrem essa espécie de rancor, em geral cansadas dos males da vida moderna (que foram, sem dúvida, conseqüência dos avanços científicos), abrem mão de compreender o âmago das coisas, das leis que regem boa parte do funcionamento das coisas, e preferem buscar uma aura, propriedades imanentes misteriosas, o bem e o mal em cada objeto, sem reduzir nada a leis, ou quase nada, e com isso tentam viver mais próximos da natureza, mais próximos, talvez, da condição primitiva do homem, sua essência selvagem e ignorante, distante das excessivas atribulações do nosso tempo.

Porém, tudo isso não passa de desconhecimento das vantagens da ciência, ou da incapacidade (preguiça? preconceito? ignorância?) de pôr cada coisa em seu lugar, cada problema com seu método, cada pensamento com sua utilidade.

Se usássemos a ciência para entender o ser humano (e me refiro aqui à Sociobiologia, não às Ciências Humanas tradicionais) seríamos capazes de evitar grande parte dos mal-entendidos, preconceitos e divergências de cada dia - situações talvez mais nocivas que as conseqüências negativas da própria ciência reducionista.

2) um preconceito, ou má-fé, ou desesperança, contra a política. Um amigo ontem me perguntou se eu não acreditava na revolução. Outro amigo, outro dia, dizia que a única solução seria uma terceira guerra mundial: começar de novo, do pau e da pedra. O Chico, do Crônicas Cotidianas, anda pregando a anarquia. Ora, sigo meu conhecimento sociobiológico de que o homem é a soma de seus instintos e sua cultura. Se milênios de civilização não nos tiraram da barbárie, ao menos nos permitiram acumular o conhecimento que hoje pode nos deixar mais perto de alguma solução política contra nós mesmos - se é que tal quimera existe. Para mim existe, e isso é óbvio: lugares e épocas distintos têm políticas distintas, e tantas políticas diferentes não são, e nem poderiam ser, igualmente boas ou ruins para todos (mesmo que sejam boas para alguns grupos e ruins para outros, nem tudo é relativo).

A humanidade levou milênios para acumular valores como direitos humanos, diplomacia e participação popular; dizer que tudo é igual, que "tanto faz", me parece pura ignorância histórica. Uma grande guerra resolveria o problema da super-população, mas certamente o reencontraríamos adiante; e pior, numa terra ainda mais devastada. Quanto à revolução, talvez melhore muitas coisas, mas acredito mesmo que os novos governantes cairão nos mesmos erros dos atuais. Acredito num desenvolvimento moral da humanidade em pequenas doses, através de pequenas mudanças na maneira como percebemos cada problema, cada regra e hábito. A mudança assim alcançada é mais duradoura, pois muda as pessoas, não os políticos. E, mais importante, pode ser implementada por cada um de nós, aos poucos, dentro de cada comunidade, na faculdade, na família, enfim, dentro do raio de ação de cada um. Como disse ao meu amigo revolucionário: não é preciso tornar-se um político para agir politicamente.

9 Comments:

At 12:41 AM , Blogger Rafa Pros said...

Gostei da parte da ciencia e acho também que é isso mesmo...temos que parar de procurar "os politicos" de verdade, e começar a pensar que a nossa ação no dia-a-dia é cercada de ações politicas (no sentido de ações que definem como é, foi e deve ser a nossa pólis)

Quanto a ciencia, sinto que como o chico, vc tambem preserva sua genese e formação biologica (não to achando ruim isso, eu tb preservo minhas construções psicossociais). Não sei como a biologia poderia explicar, agir, atuar em cima do preconceito contra os homossexuais por exemplo? Vamos por parte, concordo que mostrar que a natureza conforma alguns tipos de preferencia sexual, indica que não há descontinuidade, ou exceção, ou patologia, em certas escolhas afetivo-sexuais...Mas provar isso, estabalecer isso como verdade cientifica, não vem se confirmando na prática de menos preconceito. Porque, nós das ciencias humanas, pensamos que a estrutura do preconceito é de um tipo diferente do que a comprovação racional...
Que o ser humano nãoo voe ou não respire debaixo dagua, acho justo explicar biologicamente..quanto a buscar um substrato biologico que mostre pq os seres humanos agem como agem, acho que são niveis diferentes. é o seguinte é claro que a biologia está aí e não há como falar "há não eu não tenho biologia"..isso é uma grande bobagem. Mas não consigo ver como as "explicações finas" da composição do ser humano se explica por causa de uma determinação natural. Que uma pessoa nascida em liverpool na decada de 60 gostasse de beatles, é menos uma questão pra biologia, e mais pras ciencias socias e humanas.. Sinto, tb, em vcs desconhecimento em relação a ciencias humanas...(e tb não creio que haja muito sócio, nessa sociobiologia) primeiro, e isso é importante, a ciencia humana, não se define por uma matriz unica de pensamento...o que não significa, e muito pelo contrário que é tudo igual e tudo vale a mesma coisa. Ou seja, há varias ciencias humanas...A psicanalise e o behaviorismo, por exemplo, são construções antagonicas, que se deparam com os mesmo fenomenos e interveem, analisam de forma completamente diferente..
Pensar num nivel de generalização, e uniformização tal qual se tem nas ciencias naturais, é deslocar várias questões fundamentais da constituição do sujeito...e o mais obvio a singularidade. Não posso dizer que um negro é um negro, como uma rosa é uma rosa ( a não ser num nivel estritamente individual e organico)...porque o sistema que rege o funciomamento da rosa é o mesmo...o negro é o negro, faz sentido talvez em termos de batimento cardiacos, ossatura, tecidos, o que seja...agora partir pra entender o que pensa, o que sonha, o grau de inteligencia, o que vai fazer no carnaval, pressupõe de diversos outros elementos (cultura, sociedade, classe social, religião) que a boa ciencia humana busca saber sim...Busca analisar e descobrir as interelações mais intimas e determinantes na ação é algo que fazemos. Estabelecer que depois de conhecido um sujeito, e como ele pensa,, faz, age, de tal lugar, poderiamos compreender outro sujeito, ou um grupo de sujeitos que a partir do primeiro, vai agir de tal e tal forma é proceder no erro, tanto cientifico, como politico. Desconhecer em que se orienta o ser humano... Uma das grandes questões das ciencias humanas, é a relação tensa entre ciencia e politica. Partindo da questão de que a ciencia é a procura da verdade. E a verdade no campo da ciencia humana, define formmas e maneiras de organizar a sociedade. só um exemplo, "mulheres tem menos neuronios que homens" isso poder ser compreendido como menos inteligente = não podem assumir grandes responsabilidades, portanto, as mulheres devem ficar em casa e quietas.
E acho que isso acaba sendo uma pedra de toque das relações entre biologia e ciencias humanas.
Mas sei lá..vão discutir.

 
At 10:16 PM , Anonymous Marco said...

Oi! Só tô passando pra dizer um alô!
Tô acompanhando... outra hora faço comentários! Beijão do fã!

 
At 1:52 PM , Blogger Rodrigo said...

Beleza, Rafa. Não é que a biologia vai agir em cima do preconceito - é o conhecimento da biologia, a divulgação do Relatório Kinsey, p.ex., que pode diminuir o preconceito. A estrutura do preconceito, sua origem, é apenas a ignorância. E negar a ciência, ou buscar explicações "científicas" não experimentadas, só mantém a ignorância.

Sobre os Beatles, saiu um artigo na New Yorker (The Media Issue, recente) falando sobre um cara que desenvolveu um programa de computador que prevê quais músicas podem se tornar sucessos. O software faz uma análise multivariada considerando tudo, ritmo, melodia, progressão, duração, sei lá, tudo mesmo, e joga cada música como um ponto num gráfico. Forma-se uma nuvem de pontos. Quando ele mandava mostrar apenas as músicas que entraram no Top 30, a nuvem sumia e ficavam apenas alguns conjuntos de pontos, uns 60 conjuntos, com todas as músicas que fizeram sucesso (incluindo aí até Mozart) desde que se pôde mapear esse sucesso. Muito antes dos Beatles. Por que apenas 60 conjuntos? Quer dizer, ninguém criou nada de novo, nesse aspecto, nos últimos séculos. Indica que, biologicamente, sim, qualquer pessoa provavelmente vai gostar de Beatles, como de qualquer outra música que caia dentro desses 60 clusters.

Para mim o problema das ciências humanas é justamente não se definir por uma matriz única de pensamento. A física por muito tempo foi só Newton, depois Einstein. Na biologia até hoje Darwin é consenso, e acho que sempre será. Nas humanas, um pensador fala behaviorismo, outro diz gestalt, e cada um escreve vinte livros e ninguém sabe quem está certo. Todos os estudantes têm que ler esses livros todos, mas não lêem nenhum de biologia, que explicaria porque não somos tábulas rasas, nunca fomos.

Se mulheres têm menos neurônios que homens, isso passa a ser um fato, nem ciência é. Não é uma hipótese, é um fato. Formular qualquer pensamento a partir disso já é outra coisa, no mínimo uma indução, que é coisa bem menos segura que uma dedução - então sabemos o risco que corremos ao generalizar esse tipo de coisa e suas possíveis conseqüências.

Acho que as ciências humanas erram bem mais do que precisariam, caso conhecessem a biologia por trás do humano.

 
At 11:30 AM , Blogger Ana_Carol said...

Tem uma feminista que escreveu lembrando às suas colegas que tal problema deveria voltar a lembrar que homens e mulheres são diferentes biologicamente, já que as discussões foram tanto pro aspecto cultural que se equeceram do começo...

Quanto à sua idéia de desenvolvimento moral, também acredito que aconteça, mas um pouco o que me preocupa são frases como a do seu amigo (e que acho que vale pra muitos outros) sobe a necessidade de uma revolução ou mesmo uma descrença no mundo, traduzida no "tanto faz". Porque pra conseguir a mudança, é preciso que as pessoas antes acreditem que elas se dão por elas, e por pequenas atitudes.
Acho que nossa geração é meio frustrada porque pegou o comunismo no fim e não vai dizer aos filhos que lutou contra a ditadura. Ainda buscamos algum grande fato para sentirmos que fizemos diferença.

 
At 4:49 PM , Blogger Rodrigo said...

Sim, Ana, somos da geração que não percebeu ainda que tem um inimigo direto. Talvez por achar que o comunismo faliu, sendo a única esperança que já se nutriu contra o capitalismo. Deveríamos tentar lutar contra o que discordamos, mesmo sem saber ao certo onde isso vai nos levar.

 
At 6:01 PM , Blogger Rafa Pros said...

Nossa Rodrigo, to preparando um tópico sobre essa discussão no meu blog, “Ciencias naturais x ciencias humanas” mais como uma forma de tentar circunscrever meus argumentos..pq desde que fui pra Psicologia Social, venho discutindo com vc e principalmente com o Chico porr anos e anos. E nesse sábado tivemos uma discussão virtual mais séria, e ficou patente que o Chico acho que as ciências humanas não evoluem pq falta alguém que saiba montar experiências controladas e alguém para analisar e separar variáveis....tipo um técnico do icb (com todo respeito aos técnicos do icb).
“A estrutura do preconceito, sua origem, é apenas a ignorância.” Será mesmo? Acho que não...principalmente pensando nas brincadeiras dos meus amigos sobre “ô viadinho, ô sua bicha...vai tomar no cu” e semelhanças...algumas mais leves e outras mais pesadas... Acho que o preconceito contra homossexuais tem um papel preponderante na construção da masculinidade, e isso tem pouco de ignorancia... no sentido do desconhecer...
Sobre o lance dos beatles, se vc tiver o link eu quero sim.. não entendi bem o desenho dessa pesquisa e o que ela mostra... Apesar de achar estranho qualquer consideração desse tipo que não estude o processo de mediação entre a musica e o ouvinte...por exemplo, se hj vc tem o jabá, la em 1600 vc tinha que agradar o rei, em 1930 na Rússia tinha que agradar o Stalin, e por aí vai...se vc não agradava essas pessoas,...só lamento. Que haja um mínimo múltiplo comum para explicar gosto em musica tudo bem..que the birds, beatles, e the beach boys tenham esse mesmo substrato não explica as diferenças de cada um...e as discrepâncias de cada um em termos de fenômenos social.

“Nas humanas, um pensador fala behaviorismo, outro diz gestalt, e cada um escreve vinte livros e ninguém sabe quem está certo. Todos os estudantes têm que ler esses livros todos, mas não lêem nenhum de biologia, que explicaria porque não somos tábulas rasas, nunca fomos.” Olha não ter uma matriz única não significa nãao ter que emparelhar e comprar autores e teorias dentro de critérios mais ou menos flexíveis.. Inclusive o Steve Pinker também é lido e discutido, por algumas pessoas... é claro que muitas vezes isso não acontece..forma-se igrejinhas sim, o que é uma merda, concordo.

A discussão dos neurônios serve apenas para mostrar que a apropriação possível e feita das ciências naturais correm muitas vezes por esses corredores (que como não tem nada de ‘cientifico’ não ocupa o tempo de vcs e sim o nosso)....E que tem muito cara aí que pensa que mulher é mais burra carecendo apenas de um tese dessa...pois se a inteligência é algo que a gente nasce com ela...algo estritamente biológico (sei que não é isso que vc pensa)...é claro que quem tem mais neurônio vai ser sempre mais inteligente...
“Acho que as ciências humanas erram bem mais do que precisariam, caso conhecessem a biologia por trás do humano.”
Isso é uma hipótese e não uma tese e carece de comprovação empirica...
Abração e tomemos uma cerva logo!

 
At 3:03 PM , Blogger Rodrigo said...

Realmente, tem o aspecto da formação da masculinidade nessas brincadeiras - mas boa parte do preconceito está muito além disso, as próprias mulheres não fazem essas brincadeiras mas dizem a seus filhos que o homossexualismo é imoral (principalmente quando desconfiam - ou sabem, o que é pior - que é o caso de algum rebento seu).

O que acontece quando as pessoas lêem Steven Pinker? Será que elas entendem a seleção natural como uma lei natural, ou pensam que é tão discutível quanto um Marx ou Hegel? Realmente tem um mar de gente ignorante em qualquer área, mas as pessoas inteligentes, estão pensando o quê?

"Acho que as ciências humanas erram bem mais do que precisariam, caso conhecessem a biologia por trás do humano." - sim, é minha hipótese de trabalho atual. O problema é existir um "técnico do ICB" que consiga testar isso. :(

Até a cerva, pois!

 
At 8:49 PM , Blogger Chico Prosdócimi said...

"Penso, logo existo", não é basedo em nenhum fato... é uma pura abstração racional. O que Kant questionou na sua crítica à razão pura... e realmente o tipo de verdade que se chega assim é menos válida do que uma verdade com um embasamento factual e experimental.

Achei muito boa a defesa do reducionismo, temos que escrever mais sobre isso!!!!

Eu ando pregando a anarquia? Onde? Quando? Por que? (Acho que sempre preguei, de uma certa forma)

Tbm acredito que o desenvolvimento da moral acontece em pequenas doses. Acho que, algumas vezes, o desenvolvimento acontece em pequenas doses pra baixo tbm, como no caso do Bush e companhia. Felizmente eles não mudam o povo de um dia para o outro. Por outro lado, os EUA não virarão Europa de um dia para o outro.

 
At 10:33 AM , Blogger Rodrigo said...

Penso, logo existo. O pensamento não é um fato? E essa dedução não vem da própria definição de existir? No fim, tudo são palavras, pensar (que define uma coisa que todos fazemos e sabemos mais ou menos o que é), existir (que também sabemos o que é, mesmo sendo difícil definir). Poderia ser qualquer coisa, vejo, escuto, sinto, logo existo. Mas não li Kant não. Como um experimento ou um fato podem ser mais verdadeiros que nossa própria percepção das coisas (enunciada nessa máxima cartesiana)?

Você defendeu a anarquia num reply a algum post meu.

Não entendi o pq dos EUA virar Europa. Mas realmente, podemos até ir para baixo de uma vez só... e talvez não demore.

 

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