Wednesday, December 20, 2006

No escuro

Seu lento caminhar escondia um medo.
Tudo o que é lento teme.

Seus passos ecoavam no escuro da noite, entre os muros pichados de construções vazias. A avenida larga, reta, deserta, sombria, sinistra e comprida levava-o ao destino distante, ainda vago.



Dentro de um ônibus um jovem retornava pra casa. O amanhecer já suspirava aos mais atentos, o céu ainda azul-chumbo. No banco oposto ia um negro, forte, discreto. Mais à frente dois outros homens, todos quatro isolados, cada qual em seu assento duplo, pensamentos solitários.

O jovem podia ouvir vozes. Não sabia se as expressões nas faces alheias corroboravam os pensamentos que acreditava ouvir, ou se os ouvia já consciente - inconsciente - de suas faces; ou se, por fim, entendia o que ouvia só depois de ter visto em suas faces um sentido que lhe parecia ouvir. Por vezes, os olhava; noutras, evitava-os. Tinha em sua mente pouco mais que um catálogo de vozes possíveis, de vozes improváveis, e daquelas desejáveis. Apenas raramente diria as palavras que queria, sem nunca estar certo da reação a conseguir.

As vozes que ouvia não o deixavam louco, ou vice-versa. As vozes que ouvia eram apenas um reflexo das vozes que desejava ouvir. Seu passatempo era caminhar na noite, onde podia ouvir melhor o silêncio.

Agora, antes da aurora, ele pressentia uma grande alegria e uma grande tristeza. De imediato, no lado oposto da avenida, três cansadas figuras se movimentaram à visão do ônibus longamente aguardado, como quem verte areia das juntas, despejando uma alegria incômoda, cansada, contida. Mais à frente ele viu o veículo que os redimia. Uma grande alegria, e tão pouco júbilo. Olhou para o negro ao seu lado, mas seus olhares se cruzaram. Por um instante um mar de possibilidades lhe ocorreu, só para em seguida umedecerem-lhe o impulso atento da visão. Sem desviar o olhar, olhou para dentro de si. Depois desviou o rosto, de volta ao caminho que o ônibus redentor riscou no asfalto negro do outro lado da via. Sua grande tristeza.



Tudo o que é lento teme. Seus passos buscavam o caminho, mas os olhos perscrutavam o céu. Ou à frente, nas sombras e esquinas, vestígios de movimento. Uma bifurcação em T, à esquerda, levava à rua de baixo, uma opção. Alguma intuição lhe contou o destino: perigo ou tédio. Pressentimento ou ilusão, não importa. Tinha uma escolha a fazer, e escolheu decidi-la como mais que geometria. O tédio era sempre o mesmo. Nada que fizesse o ajudaria. Seria sempre o amanhecer insípido, a margem da lágrima; o esperar - entre os acordes. Escolheu o perigo. Desceu a rua lateral, estreita, escura, equivocada. No seu tímpano, o pensamento de que errara. Dobrou a esquina, a rua escolhida se escondia no horizonte invisível, negro, distante.

Primeiro ele achou que ouviu um suspiro, uma espécie de estampido, um fôlego; depois foram os passos; depois sua cara queimando no asfalto quente, o sangue ficando entre restos de carne. Sobre seu braço um peso descomunal, quase a quebrá-lo. No outro, uma pressão de mão segurando forte. Nas costas um joelho a triturar sua coluna. Depois, a intimidade. Seus dois braços suspensos atrás da cintura, uma mão de tenaz prendendo os pulsos, o bafo na nuca, cheiro de álcool, medo e suor. O peso insuportável. Tentou desvencilhar-se, mas um braço musculoso envolveu seu pescoço, o outro arriou a calça. Sentiu o volume que forçava, rígido; a rua escura e deserta, o asfalto frio e humilhante. A solidão. A solidão.

A primeira estocada foi como uma faca, a segunda foi pior. E assim as outras. O outro corpo imobilizava seu braço esquerdo; o braço no pescoço quase estrangulava, mas não pretendia. Suas pernas eram inúteis. Sentiu o sangue queimando nas entranhas, cheirando a medo, a dor, a revolta. As estocadas ficaram mais fundas, pareciam alcançar o fundo oposto do cérebro. De repente, o gozo. Uma espuma quente o preencheu como um nada. Depois o outro parou e retirou, devagar, o órgão entumescido, enquanto afrouxava o braço. Foi como se sentisse compaixão, ou afeto, talvez.

Ele se levantou e encarou o homem, que já se afastava. Tentou correr, mas não conseguiu. Suas pernas tremiam, sentiu o rosto se contrair; os passos só funcionavam lentos, cambaleavam, confusos.

No meio da noite o outro sumiu, tão sutil como tinha vindo, invisível; e, mais uma vez, saciado.

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