Tuesday, December 26, 2006

Não vendo, não dou, não empresto

Andei lendo a respeito das várias formas de conseguir sonhos lúcidos, aqueles sonhos nos quais você sabe que está sonhando e, assim, consegue ter algum controle sobre o que acontece do lado de lá. Fazem uns dois anos que voltei a dormir em rede, e posso afirmar que meus sonhos são muito mais ricos agora do que à época em que eu dormia numa cama.

Meu quarto tem ganchos para rede colocados na altura exata que me permite deitar ao nível da janela, vendo do lado de fora os sinais da noite e do amanhecer. Deixo no chão um ventilador que me refresca através da rede, e pendurado na aba móvel da janela - aberta - um lençol que invariavelmente puxo no meio da madrugada, quando o mormaço do início da noite dá lugar ao frio leve da madrugada. De vez em quando eu acordo, mudo de posição, olho para fora, escuto os gatos se pavoneando ou brigando no quintal, mas sem perder completamente a semi-consciência do sono. É sabido que sonhamos algumas vezes por noite, durante os momentos em que nossos olhos se movem rapidamente (chamados de fases REM - Rapid Eyes Moviment). Também se sabe que apenas nos lembramos dos sonhos quando acordamos durante a fase REM, e quem acorda apenas pela manhã, com o despertador, fora de uma fase REM, acaba tendo a impressão de não ter sonhado nada.

Felizmente, tenho o sono leve. Os pássaros começam a cantar às cinco da manhã, e já me acostumei a acordar com eles, mas permaneço na rede. É até possível que eu acorde todos os dias a essa hora, mas nem sempre me lembro. O que sei é que criei o hábito de semi-acordar diversas vezes durante a noite, e com isso consigo "costurar" um sonho ao outro, não na forma exata de um sonho lúcido, mas algo como um longa-metragem, como uma sucessão de ondas oníricas que, às vezes, decorrem tão belamente quanto uma senóide perfeita, e me dão o prazer de sonhar cidades inteiras, com tramas de aventura complexas e às vezes interligadas às tramas de outras noites.

Foi o que tentei explicar para alguns amigos que não entenderam como podia eu, brasileiro, em pleno século XXI, dormir numa rede tendo dinheiro para comprar quantas camas eu quisesse. Poderia até comprar as camas, ou mesmo uma só, mas isso seria um pouco como vender meus sonhos - o que está, evidentemente, fora de cogitação.

2 Comments:

At 7:52 PM , Blogger Chico Prosdócimi said...

Bom, eu tinha te entendido e invejado, inclusive. Não tive a impressão de que as pessoas te questionaram pelo fato da cama ser barata e, sim, por ser mais confortável. De qq forma, crônica não é nem pretende ser realidade. :P

Tenho a impressão de que dormir com alguém do lado surta efeito semelhante ao de dormir numa rede. A pessoa mexe e vc acorda de leve várias vezes durante a noite. Talvez seja um opção mais aconchegante que uma rede... eu disse 'talvez'.

 
At 4:41 AM , Blogger Rodrigo said...

O argumento é este, a cama, embora mais cara, seria mais confortável. E eu TENHO dinheiro para a cama - daí ninguém entende.

Mas nunca me acostumei a dormir com alguém na mesma cama, sou espaçoso e mexo muito. Uma solução seria duas redes, uma do lado da outra ;)

 

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