Friday, February 09, 2007

Conservação de 8 a 80

Nos meus tempos de criança tinha um clube perto da minha casa. Eu e meus irmãos, quase sempre acompanhados por um séquito de primos, costumávamos ir lá nos fins-de-semana, quando chegávamos com o Sol ainda baixo e só saíamos quando os seguranças nos expulsavam da piscina, lá pelo terceiro apitar da sirene das cinco horas. Também íamos nos dias de semana, mas com menor freqüência e em menor número.

A situação financeira da minha família não era muito estável, e nem todos os meses a mensalidade do clube estava em dia. Ficávamos frustrados quando algum primo passava lá em casa num desses meses, nos chamando para ir ao clube, e nós, sem nenhum orgulho, contávamos porque não podíamos ir. Mas geralmente o clube estava lá, acessível a nós, felizes membros da classe média da época, e ocupa até hoje várias páginas agradáveis das nossas memórias de infância. Mas e quanto aos que não tinham esse privilégio?

Não sei se existe um índice ou equação que meça essa coisa vaga que chamamos de qualidade de vida, mas tenho certeza que o acesso ao lazer é uma peça fundamental desse conceito. Antigamente, ou seja, muito antes de eu nascer, era comum associar-se o lazer com a existência e a proximidade de áreas naturais. Hoje, nas grandes cidades, muito tempo depois do grande êxodo rural, lazer costuma estar associado a projetos urbanos como clubes, praças, ciclovias, cinemas, teatros, shopping-centers. Numa cidade como Belo Horizonte, a diferença entre o público que freqüenta, digamos, o Shopping Cidade e o Parque Municipal - ambos no coração do centro da capital mineira - é gritante.

No primeiro, pessoas de todas as idades e classes sociais, embora predominem jovens de baixo a médio poder aquisitivo (os mais ricos preferem o Diamond Mall, o que o próprio nome já sugere). É evidente a preocupação com a roupa, que deve estampar alguma marca famosa, ainda que falsificada, e com os cabelos, que deixam transparecer mais vaidade que praticidade.

No Parque Municipal o cenário é bem outro. Para começar, o Parque tem hoje apenas 1/4 de sua área original. O projeto do engenheiro Aarão Reis, responsável pelo desenho inovador (para a época) de ruas perpendiculares e avenidas largas e transversais, previa um parque que deveria se tornar o coração da cidade, situado em frente à sede da prefeitura, na principal e mais larga avenida de então, e com os fundos para a nobre região hospitalar. Hoje, o Parque é diversão apenas para famílias de baixa renda, além de recanto para a sesta diária de garis, operários e vagabundos, e ponto de furtivos encontros entre homossexuais que preferem a gratuidade ao glamour.

Conservar para quem?

Tenho muitos amigos biólogos que, indagados sobre a questão conservacionista, mostram-se conscientes da necessidade e da urgência de protegermos os recursos naturais. Algumas cervejas depois, porém, quando a conversa avança dos princípios e fins para os meios - os "comos" da conservação - o fantasma da impotência acaba se abatendo sobre eles: como conservar o que sobrou de nossas florestas, cerrados, campos naturais, quando o ideal-conservacionista-da-boca-para-fora apenas dissimula o desejo quase universal de bens materiais, carros do ano, casas luxuosas, roupas acima da média, eletro-eletrônicos nada duráveis e altas taxas de consumo de combustíveis fósseis, energia elétrica e produtos descartáveis, além do desperdício de água, a poluição em todas as suas formas e tudo o mais? Como alguém realista pode esperar ainda salvar o mundo? Para que lutar pela conservação, se as previsões mais otimistas prevêem a desertificação da maior parte da Amazônia em 100 anos ou menos? "Eu nem estarei aqui daqui a cem anos" é um desabafo comum.

Acho que era Sócrates (o filósofo, não o jogador da Seleção de 86) quem dizia que metade das discussões estariam resolvidas se as partes primeiro definissem seus termos. Concordo com ele, e também acho que a outra metade se resolveria se as pessoas fossem menos extremistas. Se o assunto é conservação, quem falou em "salvar" o mundo? Se o fim da Amazônia for mesmo a desertificação, quantos milhões de famílias, quantas gerações estarão aqui durante todo o processo, perdendo pouco a pouco sua qualidade de vida, e aproveitando ao máximo cada dia de cada árvore poupada?

A idéia da conservação é semelhante àquela história do menino que pegava estrelas-do-mar na areia da praia e as atirava na água, e que, questionado por um adulto sobre a inutilidade de seu gesto, dados os milhões de animais ali encalhados, respondeu: "pode não fazer diferença para você, mas para cada bicho que eu salvo, faz."

Estamos no limiar de duas eras. Saímos da fase da desinformação geral e dos alarmes considerados sensacionalistas por parte de eco-chatos ou eco-xiitas, para entrar na fase do terror generalizado e previsões apocalípticas que correm o risco de cair no lugar comum. Pior: antes não se fazia nada pela incerteza ou pelo desconhecimento do problema; agora enfrentamos o perigo de não se fazer nada devido ao estúpido convencimento de que não há nada mais a fazer.

Jamais salvaremos o mundo. Mas para cada criança pobre do planeta pode haver uma área natural - sua única opção gratuita de lazer - a 1, 10 ou 100 quilômetros de sua casa. O nível do mar, daqui a 50 anos, pode subir 1, 5 ou 20 metros. O preço da água potável daqui a vinte anos pode alcançar 1, 2 ou 10 dólares. Hoje mais de metade da humanidade já não tem acesso a água potável. Amanhã podem ser 90 ou 99%. Pense nisto: conservação é qualidade e quantidade. Cada hectare faz diferença.

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