Friday, January 05, 2007

A história que não tinham contado ainda (até porque ainda não tinha acontecido)

O país A invadiu o país B. Mas não foi uma invasão comum, pelo contrário, foi algo que nunca, até então, ninguém tinha visto ou pensado, nem mesmo as criancinhas, que mesmo tendo sempre sacadas geniais, quase ninguém se lembra de escrevê-las, e quando essas mesmas crianças aprendem, por fim, a escrever, já ficam tão deformadas pelas inutilidades e pelas coerções escolares que já não se lembram mais de ter aquelas idéias geniais. O país A invadiu com muita calma o país B. Aliciou revolucionários de B, insatisfeitos com o sistema vigente em seu país, à medida que infiltrava seus próprios militares, como turistas ou estudantes, casando-os com as mulheres locais, ou as mulheres militares com homens nativos, mas também distribuindo-os nas grandes companhias, as chamadas multinacionais, e até na política, na polícia, no circo, nas padarias e, pasmem, no próprio exército de B. Claro que na maioria das vezes conseguiam uma identidade falsa, e os espiões (que na verdade não eram todos espiões, porque a maioria só fazia esperar pelo dia do ataque), esses espiões e não-espiões achavam muito fácil se passar por cidadãos de B, porque os dois países eram vizinhos e compartilhavam de uma história, e quem sabe, uma pré-história, comum, chegando mesmo a ter sido sugerido por alguns revolucionários (aqueles insatisfeitos) que as duas nações se unissem, sendo que para todos os outros cidadãos, fora esses revolucionários, a idéia era totalmente absurda, uma completa negação, ou "ignoração", como diriam os mais modernos, da história recente e da distante, do mundo todo. Dizia-se mesmo que era contra a própria biologia da espécie, que só se confortava com a perspectiva de pertencer a um grupo bem definido, de dentro do qual é possível proteger-se dos grupos hostis, todavia necessários para um dos instintos mais basais do homem, que é o de falar mal dos outros, de preferência estrangeiros, mas também loucos, gênios, poetas, bêbados, atrizes, atores, políticos, policiais, vendedores, garçons, clientes, patrões, funcionários públicos, pobres, ricos, miseráveis, desdentados, exibicionistas, belos, feios, altos, baixos, gordos, magros, sarados, consumistas, desapegados, luxuriosos, jejuadores, padres, madres, freiras, bispos, pastores, advogados, juízes, professores, alunos, enfim, falar mal, verbo intransitivo. Mas sempre se considerou saudável manter a harmonia social (isso antigamente), daí a predileção especial em falar, e pensar, mal de estrangeiros - xenofobia. E para uma biologia xenófoba, ou xenofóbica, ou filosofando mais além - xenofobófila, que é a pessoa que ama a sua xenofobia, não faz sentido pensar em unir pacificamente dois países, ainda que vizinhos, ainda que irmãos. Mesmo que fossem gêmeos siameses!, exaltavam-se alguns. Até que, naquele dia, foi dado o sinal, e todos os espiões e não-espiões de A que estavam em B começaram a matar, sozinhos, em duplas, trios ou grupos ainda maiores, seguindo planos dos mais variados, o máximo de policiais e militares do país B, o que foi relativamente fácil, porque a data escolhida era um dia de grandes comemorações - e por conseguinte, grandes distrações - cívicas e militares; era, ironicametne, o dia do aniversário da independência de A (não em relação a B, que jamais houvera sido, até então, sua "metrópole"; mas em relação a C, que havia sido, até não muito tempo atrás, o país distante, sub-tropical, pequeno e rico a colonizar ambos, A e B, países tropicais grandes e também ricos, embora ocupados por um povo feliz, e por isso mesmo preguiçoso, indolente, acomodado e não-bélico). Com o sucesso do golpe foi fácil para A invadir, anexar, submeter e humilhar B e todo o povo de B, que, mesmo sendo indistinguível do povo de A, sentiu-se profundamente transtornado pela novidade, chegando às raias da indignação patriótica, na forma de manifestações tímidas que logo foram abafadas pelo governo de A e, mais tarde, completamente esquecidas.

Hoje os dois povos, que nunca haviam deixado de ser um só, são cada vez mais diferentes, inventando para si maneiras de se distinguir e se destacar e se isolar, de forma que o que antes era xenofobofilia passou a ser um ódio hiperbólico, uma repulsa homérica, e nunca mais alguém dirá que aquele povo, antes separado, era assim um só, e que só agora, juntos, vivem separados. Se é que alguém dirá alguma coisa.

2 Comments:

At 5:13 PM , Blogger Chico Prosdócimi said...

Eu diria, antes de consultar, que xenofilia seria melhor que xenofobofilia. Mas o dicionário me diz que xenofilia é o gosto pelo estrangeiro, que não tem nada a ver com o que vc quer passar. Então, considerando este ponto, eu passaria a não ter mais nada a dizer.

Ou melhor, teria sim. Acho que os países não eram iguais antes pq qualquer mínima diferença regional já gera diferença entre as pessoas. Ou seja, há diferenças entre as pessoas de BH e Nova Lima, ainda que seja pequena. Da mesma forma que há diferenças entre as pessoas da savassi e do centro. Mas, sei lá, estória é estória e não compromisso com a realidade.

Eu deveria era não ter dito coisa alguma.

 
At 12:18 PM , Blogger Rodrigo said...

Porra bicho, vc sabia que xenofobia era aversão a estrangeiros, não? Não fica óbvio que xenofilia seria gosto por estrangeiros? Putz, pra um biólogo isso devia ser óbvio, acho, mas enfim.

Com certeza BH pra Nova Lima tem diferenças. O lance é que nos dois países imaginários as diferenças entre os indivíduos do mesmo país é maior que a média ENTRE os países, igual aquela história das raças humanas. Mas foi bom vc falar porque eu mesmo só pensei nisso, digamos, expus em palavras pro meus próprios daemons mentais, agora.

[]s.

 

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