Wednesday, March 07, 2007

Afronésia sinestésica

Quando Pedro chegou em casa, ao colocar as chaves sobre a mesa percebeu que seus olhos sem querer caíram sobre o cinzeiro vazio. Mas Pedro tinha certeza que o deixara cheio pela manhã, e Pedro não tinha empregada e morava sozinho. Ali como estava, em pé, Pedro ficou por um minuto inteiro pensando no que podia ter acontecido. Como nada lhe viesse à cabeça, ficou parado ainda outro minuto, e outro, até que desistiu de pensar e foi tomar banho.

Debaixo do chuveiro, Pedro tentava não pensar em nada enquanto a água lhe caía levemente fria sobre a cabeça quente, a cabeça que começava a não pensar mais no cinzeiro. Ao tentar se ensaboar, porém, Pedro notou que também a saboneteira estava vazia. Mas como, se ele tomara banho pela manhã? Claro, um ladrão. Roubou até o sabonete. Ao menos havia xampu, e ele se lavou assim mesmo, indignado mas com uma ponta de dúvida: e se o invasor ainda estivesse em casa? Poderia repetir-se a apoteose Hitchcockiana de Psicose? Ou o psicótico, ali, era ele? Desligou o chuveiro e foi investigar a casa.

Pedro não tinha muitos móveis, então levou apenas dois segundos vasculhando o modesto guarda-roupas - só se fosse um anão, pensou - e debaixo da cama. Nada. O único móvel da copa era a geladeira, que ele não abriu pelo ridículo da imagem que poderia conter, caso sua suposição estivesse correta. Preferiu primeiro olhar o quarto de depósito - ouviria a geladeira barulhenta se abrindo - mas sem tirar o olho do caminho da cozinha, caso contrário um invasor vidente poderia esgueirar-se novamente até o seu quarto no exato instante em que ele se abaixasse para olhar dentro do antigo baú jogado às baratas. Antes, então, de abrir o baú, vendo que o depósito estava vazio, ele foi até a cozinha para constatar sua solidão, e por último olhou o baú e a geladeira (!), ambos livres de anões e outros seres semi-mitólogicos, dos quais Pedro nunca tinha duvidado completamente.

Olhou as fechaduras e os trincos das janelas, tudo em ordem. Algo mais o incomodava, além do sumiço do sabonete e do esvaziamento do cinzeiro. Quem esvaziaria o cinzeiro? Tomando o objeto novamente à mão, Pedro notou que estava, inclusive, tão limpo como se nunca houvesse sido usado. Talvez ele estivesse ficando louco? Como seria a loucura, assim, vista por dentro? Os loucos sabem que são loucos? Talvez justo aquele obscuro funcionário da firma, aquele que toma café sozinho voltado para a parede, todos os dias no mesmo horário, fosse um louco que conseguia camuflar a sua loucura, e no fundo só mesmo ele estaria certo de sua loucura... Pedro continuava de pé no meio da sala, em suas divagações, quando percebeu que faltava algo. A sala parecia maior. Faltaria algo mais? Sim, faltava. Algo muito pior que o sabonete ou as medíocres cinzas de um cinzeirinho xulo. Não havia mais lâmpada. O teto era apenas uma parede a mais, lisa, branca e quadrada, misteriosamente repousando sobre sua cabeça. Nunca houve ali lâmpada alguma. Um tremor percorreu-lhe a espinha, um tremor quente e macio, quase confortável.

Percebeu que não havia também interruptor, o que era óbvio. Por que uma sala sem lâmpada precisaria de um interruptor? Pedro foi de novo até o quarto, e percebeu que a lâmpada também nunca havia existido ali, nem em qualquer outro lugar da casa, nem seus respectivos interruptores, nem, Pedro verificou apenas alguns instantes depois, as tomadas elétricas, o que não era tão óbvio quanto os interruptores. Pedro sentou-se na cama, para pensar, mas levou uma queda tão espetacular que sequer notou o fato de que não havia mais cama. Pensou que sentara no lugar errado, e foi sentar-se no certo, porque já acreditava que sua visão estivesse lhe pregando peças. Mas não estava, e ele caiu de novo, ficando ali meio sentado e meio deitado no chão empoeirado do que fora poucos minutos antes o lugar em que procurara o suposto ladrão das cinzas do cinzeiro.

Pedro, na verdade, nunca tinha sido um místico; até aquele dia. Cogitou se o instinto de associar o sumiço de cinzas e sabonete primariamente a um ladrão não teria sido muito mesquinho de sua parte. Por que não um deus travesso? Ou um demoniozinho desses que devem pulular por aí? Ou talvez duendes, sacis, mapinguaris, bruxas, gnomos, ogros, elfos, etês, chupacabras, caboclos d'água ou políticos honestos, sim, quem sabe não teria sido um político honesto quem entrou na sua casa para dar seu sabonete aos menos favorecidos? Agora o sumiço da cama até fazia sentido, já que apenas políticos poderiam ser tão experientes para fazer desaparecer tão rápido um objeto grande e indiscreto como uma cama de casal.

Por fim Pedro se cansou de especular e foi até a geladeira tomar água, mas se arrependeu de sua ingenuidade em achar que ainda haveria geladeira. Por que teria de haver? Ora, quem precisa de geladeira? e Pedro foi até a torneira da cozinha, mas já não havia nem mesmo cozinha. A porta por onde Pedro entrara vinte minutos antes já não existia, e a parede parecia encarar Pedro como uma esfinge, pronta a devorá-lo ali mesmo, caso ele insistisse ou hesitasse. Pedro correu até seu quarto e sentou-se no chão, amedrontado. Reparou que até a poeira já não existia mais, e que o chão brilhava como se tivesse sido encerado por centenas de enceradeiras trabalhando por meses a fio. Ainda assim Pedro só pensava se devia ou não ir ao depósito, verificar o que teria sido feito de seu velho baú. Poderia não ir, e assim quem poderia dizer se o baú ainda existia ou não? Talvez a falta de uma testemunha fizesse a pergunta perder o sentido; talvez o baú flutuasse já num éter onde não faz sentido a questão da existência. Talvez tudo tivesse sido sempre assim, e apenas agora ele tivesse notado, num dia comum, em que não bebera nem fumara, nem discutira com seu chefe, nem tentara a sorte na loteria, nem cantara nenhuma garota delicada e agradável que não chegou a passar pela esquina em sentido contrário. Se é que tudo isso existe, Pedro pensava, e já não havia porta ou banheiro ou quinas nas paredes. Só a janela tinha sobrado, mas talvez fosse tarde demais. A janela fitava Pedro com uma interrogação.

Pedro levantou-se para abrir a janela e sair dali, mas parou no meio do caminho, perplexo. E se abrisse e o mundo também não existisse mais? E se o mundo nunca tivesse existido, de fato? Talvez ele mesmo, Pedro, não existisse. Mas então sua existência deveria ser a imaginação de alguém, ou um sonho, e ele deveria, portanto, ser parte desse alguém que sonha ou imagina. E assim, mesmo sem ser ele mesmo, apenas sendo algo, ou ainda parte de algo, talvez parte de uma parte de outra parte, quem sabe infinitamente, Pedro podia ainda conceber a realidade por trás daquela janela. Desde que fosse algo. Pedro fechou os olhos. Poderia nunca mais abri-los. Poderia deitar-se ali e dormir um sono profundo e fazer uma greve de fome involuntária, e morrer lentamente, e assim tudo faria sentido, mas Pedro não queria sentido, ele queria o seu mundo de volta.

Abriu a janela.

E não havia nada lá fora. Nada. Nem luz nem sombra, nem direção nem distância, nem ar nem vento, nem dia nem noite. Nada. Pedro olhou para as suas mãos e viu que elas também estavam desaparecendo aos poucos, ficando translúcidas lentamente. E não eram só as mãos, tudo sumia. Desesperado, Pedro olhou para o seu corpo, e todo ele desaparecia ante seus olhos espantados, as juntas tremendo, as pernas perdendo força, deixando de existir, como sua roupa e as superfícies lisas e polidas que ainda formavam a câmara já indistinta que tinha outrora sido seu quarto.

Uma solidão escura envolveu sua consciência, Pedro não enxergava mais, nem ouvia, nem sentia o próprio peso. Não sentia mais o chão, nem as mãos, nem os braços. Pedro tentou em vão, uma última vez, sentir o mundo à sua volta, mas já era tarde demais; o tempo só corre uma vez, sempre a mesma vez, e já era tarde demais para ele.

1 Comments:

At 1:27 PM , Blogger Chico Prosdócimi said...

Sensacional! A do anão e a do político honesto foram ótimas! Hahahahaha!

Fico pensando que nesses casos absurdos é foda de terminar os textos em algo que seja interessante. Tenho a impressão que a maioria deles termina num estado estável equivalente ao infinito, como é o caso deste seu e de outros meus que me vêm agora à mente.

 

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