Wednesday, March 07, 2007

Sons

"Mas enquanto nos limitamos aos livros, ainda que os mais seletos e clássicos, e lemos apenas determinadas linguagens escritas, por si mesmas dialetais e provincianas, corremos o risco de esquecer a linguagem que todas as coisas e acontecimentos falam sem metáfora, e é, em sua singularidade, abundante e exemplar. Muita coisa é impressa, mas pouco é o que deixa impressão. Os raios que escoam através da persiana não serão mais lembrados quando a persiana for retirada. Nenhum método nem disciplina suplanta a necessidade de permanecer sempre alerta. O que é o curso da história, a filosofia, ou a poesia, por mais selecionada que seja, ou a melhor sociedade, ou a mais admirável rotina de vida, em comparação com a disciplina de olhar incessantemente o que existe para ser visto? Leitor, mero estudioso, observador, o que se há de ser? Lede vosso destino, vede o que está a vossa frente e marchai para o futuro.

"No primeiro verão não li nenhum livro; cuidei dos feijões. E muitas vezes fiz até coisas melhores. Houve ocasiões em que eu não era capaz de sacrificar a beleza do momento presente a qualquer trabalho intelectual ou manual. Gosto de uma larga margem para a minha vida. Às vezes, numa manhã de verão, após o banho de praxe, do amanhecer ao entardecer sentava-me na ensolarada soleira, absorto num devaneio, em meio aos pinheiros, nogueiras e sumagres, em completa solidão e serenidade, enquanto os pássaros ao redor cantavam ou esvoaçavam silenciosos através da casa, até que o sol batendo na janela do lado do poente, ou o barulho de um carro na longínqua estrada, me fizesse lembrar a passagem do tempo. Crescia eu nessas temporadas que nem o milho durante a noite, e elas eram melhores que qualquer outro trabalho feito com as mãos. Não representavam tempo subtraído à minha vida, e sim um tempo além e acima de minha quota habitual. Percebia o que os orientais chamam de contemplação, bem como renúncia aos trabalhos. Na maioria das vezes, não me importava como as horas passavam. O dia avançava como a iluminar algum trabalho meu; era manhã, e vejam, já é noite, e nada de memorável acontecera. Em vez de cantar feito os pássaros, sorria silenciosamente por minha incessante boa sorte. Como o pardal pousado numa nogueira diante da minha porta tinha o seu chilreio, assim tinha eu o riso reprimido ou o sustado gorjeio que ele poderia ouvir fora do meu ninho. Meus dias não eram os dias da semana, com o carimbo de divindades pagãs, nem eram esfatiados em horas ou estilhaçados pelo tique-taque de um relógio; porque vivi no estilo dos índios Puri, de quem se diz que "têm uma única palavra para ontem, hoje e amanhã, e que expressam a variedade de significados apontando atrás para ontem, em frente para amanhã e em cima da cabeça para o dia que passa." Sem dúvida, isso para meus concidadãos era pura ociosidade; mas se eu fosse julgado pelo padrão dos pássaros e das flores, não seria condenado. É bem verdade que um homem deve encontrar razões em si mesmo. O dia natural é muito calmo e dificilmente reprovará a indolência do homem.

"No meu modo de viver, levava pelo menos essa vantagem sobre os que se viam obrigados a procurar fora sua distração na companhia das pessoas ou no teatro, pois minha própria vida tornou-se a minha distração e nunca deixava de apresentar novidades. Tratava-se de um drama com muitas cenas e sem desfecho. Na verdade, se estivéssemos sempre ganhando o próprio sustento e regulando nossas vidas de acordo com o melhor modo recém-aprendido, nunca seríamos incomodados pelo tédio. Segui vosso gênio bem de perto e ele não falhará em vos mostrar uma perspectiva nova a cada hora. A lida doméstica era um agradável passatempo. Quando o assoalho estava sujo, levantava-me cedo, e colocando todos os móveis fora de casa; na grama, cama e colchão juntos, jogava água no chão, aí espargindo areia branca do lago e com uma vassoura esfregava-o até deixá-lo alvo e limpo; e na hora em que as pessoas do povoado estariam tomando o café da manhã, o sol já tinha secado minha casa suficientemente para me permitir entrar e prosseguir com as minhas meditações, que assim quase não eram interrompidas. Era agradável ver todos os meus haveres domésticos em cima da grama, empilhados como trouxa de cigano, e a minha mesa de três pés, da qual eu não retirara os livros nem caneta e tinta, ali bem no meio dos pinheiros e das nogueiras. Pareciam rejubilar-se de estarem lá fora e como sem vontade de retornarem à casa. Às vezes dava-me a tentação de estender um toldo sobre eles e instalar-me ali. Valia a pena ver o sol brilhar sobre essas coisas e ouvir o vento soprando livre sobre elas, já que os objetos familiares parecem bem masi interessantes ao ar livre do que dentro de casa. Um pássaro pousa num ramo próximo, sempre-vivas crescem debaixo da mesa e rebentos de amora preta enroscam-lhe as pernas; por todo canto espalham-se pinhas, ouriços de castanha e folhas de morangueiros. Parecia o meio de essas formas virem a trasferir-se para nossos móveis, mesas, cadeiras e camas que um dia estiveram no seu ambiente."

- Walden ou A vida nos bosques, de Henry David Thoreau.

1 Comments:

At 1:20 PM , Blogger Chico Prosdócimi said...

No início achei que fosse seu, mas no meio reconheci como provavelmente do Thoreau, o que se revelou correto.

Sensacional!

 

Post a Comment

Subscribe to Post Comments [Atom]

Links to this post:

Create a Link

<< Home