Wednesday, December 19, 2007

O valor de genes e memes

Os filósofos estão confusos. O mundo está atravessando uma mudança tão vertiginosa nos costumes, impulsionado pelas possibilidades abertas pela tecnologia, que nenhuma opinião parece segura ou duradoura o bastante para que nos decidamos por ela. Por um lado, velhos preconceitos se multiplicam como reflexo e resistência à mudança - um fenômeno parecido com a inércia ou o atrito da física, algo que era de se esperar. Por outro lado, pensadores buscam entender o mundo e encontrar ordem no que parece um caos crescente.

Num mundo de religiões em conflito, onde a diversidade de pensamentos ganha espaço, voz e imagem no ciberespaço, a destruição da moral proposta por Nietzsche, ainda no século XIX, nunca foi tão atual. Sua proposta era a busca da verdade em nós mesmos, a derrubada dos ídolos, o questionamento das verdades que persistiram por milênios no coração da humanidade e que, infelizmente, ainda encontram eco na maioria das mentes destes dias conturbados em que vivemos. Chegamos ao ponto em que o pensador que busca a verdade, que quer se desvencilhar de todos os dogmas, pensa não haver mais, afinal, certo e errado, bem e mal, quaisquer valores definitivos nos quais possamos nos apoiar para livrar-nos da vertigem que nos enfraquece. Tudo é relativo, ele clama. As palavras e idéias - os assim chamados memes - são tão variáveis e livres quanto os genes que dão forma à matéria viva que nos cerca. E igualmente amorais. A beleza está na diversidade, e não há senão preconceitos, pontos de vista, opiniões enviesadas por interesses. Nada é absoluto, nada é fixo, nada é derradeiro.

Esse raciocínio é correto até certo ponto, creio que na mesma medida em que podemos dizer que o ar é transparente. Mas as montanhas vistas ao longe não se tornam azuis com a distância? Até onde, então, o ar ainda é transparente?

O que é a moral, afinal? Não são os nossos preconceitos sobre o que é certo e errado? O que poderia ser mais relativo? Um predador que persegue a presa concebe a fome como o seu mal, enquanto a presa concebe a saciedade do predador como o seu mal. Cada lado tem sua moral peculiar. O mesmo ocorre com as pessoas, onde a felicidade de uns nem sempre corresponde à felicidade dos outros. Onde, então, haverá espaço para o bem? Não foram poucas as tentativas feitas para estabelecer uma tábua de valores duradoura. Temos a Regra de Ouro confuciana, temos os Dez Mandamentos bíblicos, temos as legislações de cada país, temos o utilitarismo de Stuart Mill e muitas outras idéias que, infeliz ou felizmente, se excluem mutuamente. Não há ponto pacífico, eis o motivo porque estamos aqui, pensando, escrevendo e lendo. Caso contrário comeríamos e dormiríamos.

Peguemos o utilitarismo: o que pode ser o ideal para a humanidade como um todo? Talvez o máximo de conforto para todos, com o mínimo de desigualdade entre ricos e pobres. A idéia é simples, mas parece que, quanto maior o conforto introduzido em uma sociedade, maior se torna a desigualdade entre ricos e pobres. Então qual extremo seria preferível, uma nação de pobres por igual, onde a dignidade da maioria não seria ultrajada pelo excesso e pelo desperdício de uma minoria, ou uma nação de ricos e pobres, onde alguns, ao menos, teriam acesso a um certo nível de conforto? Está claro que é uma pergunta sem solução única, e cada pessoa há de achar mais justa uma configuração particular. O que todos estamos de acordo, ao menos, é que o conforto é uma conquista pela qual é justo trabalhar, e que a igualdade social traz vantagens para a sociedade.

Bem, se concordamos com isso, podemos nos consolar pelo fato de nem tudo ser tão relativo assim. Algumas verdades parecem mais auto-evidentes do que outras. Coragem e covardia são facilmente reconhecíveis em qualquer canto do planeta, assim como bom humor e ira, admiração e desprezo, aflição e serenidade. E não é de se estranhar que seja assim - somos humanos. Compartilhamos a maior parte dos genes que nos constróem. Esperar que a moral não exista, apenas por ser parcialmente relativa, é como esperar um automóvel que saia sem rodas ou motor da linha de montagem - diferenças superficiais não poderiam suprimir o básico.
Podemos sempre, ou quase sempre, nos colocar no lugar de outra pessoa e entender os motivos que a fizeram agir de uma certa forma. E se não o podemos fazer, é mais devido a preconceitos que por alguma incapacidade fisiológica. Talvez por falta de experiência, mas podemos esperar que inúmeras pessoas com experiências semelhantes, ou nem tão semelhantes assim, pudessem fazê-lo em nosso lugar. O fato é: a moral é relativa e varia segundo o grupo cujos interesses consideramos. Se considerarmos todos os lados envolvidos numa disputa, ainda assim é possível encontrarmos uma solução moral que se adapte à nossa visão global da moral. Em termos práticos, trata-se geralmente de defender ora uns, ora outros interesses. Se pudermos conceber a justiça como o equilíbrio da força nas mãos de todos, então não haverá dificuldade em tomar uma decisão moral para cada caso em particular.

E sempre haverão casos aparentemente insolúveis, em que os dois lados apresentam um equilíbrio de forças. Talvez não caiba a ninguém, nesse caso, senão às partes envolvidas, chegarem a um acordo. Mas acredito que esses casos são a minoria, e que a justiça a ser feita é fácil de ser apreendida por qualquer pessoa, em qualquer lugar e época. Confiarmos em nossos instintos, nesses casos, tende a ser o melhor juiz.

Ora, então a moral deixou de ser relativa. Apenas o escopo analisado é que define onde há e onde não há uma moral bem definida. E numa sociedade altamente dividida como a nossa, com a minoria montada sobre as costas dos escravos de sempre, só não toma partido quem não quer...

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