Tuesday, June 10, 2008

Origem da moral

Muito se diz que a ética não pode vir da ciência, que deve vir de uma área à parte, algo mais filosófico (no fundo a religião não quer abrir mão de sua "galinha dos ovos de ouro"). Posso escutar suas palavras: "a ética não pode ser descrita ou medida cartesianamente como medimos os bicos dos pássaros e as sementes de que se alimentam".

Mas de onde então viria? E como explicar todas as semelhanças entre os povos dos lugares mais distantes e de todas as épocas? Por exemplo, como explicar que nalgum povo isolado do Pacífico seja estranho um indivíduo assassinar o outro apenas porque este pisou-lhe o pé? Ou, como explicar que um assassinato banal sempre desperta a ira dos parentes e amigos do assassinado? Não poderiam as pessoas simplesmente dar de ombros - caso não tivessem a moral como uma característica quase anatômica?

A moral ainda não foi ensinada como já vem sendo pesquisada, ou seja, como um fenômeno natural que evoluiu junto com os demais traços humanos. Onde estão os pontos homólogos entre o nosso comportamento moral e o comportamento dos animais? Como poderiamos mesmo esperar nos compreender ignorando os animais e nosso parentesco com eles?

Ou, para ficar na nossa espécie, qual a diferença entre um assassinato e um aborto? Se uma mãe, naquela mesma ilha isolada do Pacífico, decide que não quer o filho que traz na barriga, quem tem direito a contestá-la seria, no máximo, o pai da criança. Como ele talvez nem tenha certeza da paternidade, poderia nem se atrever. Mas os avós virem dizer à moça o que fazer? O cacique? Ora, se a mãe mata a criança antes do desmame, os avós achariam mais estranho, tanto trabalho para isso? E se a mãe mata a criança de seis anos, já quase tão forte quanto ela mesma, e agora com as amizades de outros irmãos e primos, com alianças e inimizades, egoísmos e invejas, com seu próprio modo de rir e sua habilidade para pescar ou para trepar nas árvores, com tudo que a distingue como um membro único na comunidade -- e não apenas outro bebê -- os avós provavelmente matariam a mãe, e talvez todas as suas crianças, na simples e compreensível necessidade de eliminar de sua pequena sociedade esses genes assassinos.

4 Comments:

At 8:38 AM , Blogger Chico Prosdócimi said...

Acho que vc mistura as coisas.

Primeiro, não acho que exista em nenhuma cultura humano alguma coisa do tipo "o cara pisou no pé, logo deve morrer". Esse é um exemplo infeliz. O assassinato é visto como amoral em qualquer sociedade humana e só é moralmente aceito caso a vítima do assassinato já tenha assassinado outrem (falo dos casos de pena de morte). Não se propõe pena de morte a alguém que tenha apenas roubado -- mesmo que milhões.

A outra questão está relacionada ao início da vida. Acho que há uma diferença nítida entre um ser ainda no ventre e um ser que já nasceu. Quando o ser ainda não nasceu, ele não pode (eu acho) ser considerado vivo. É essa a diferença entre aborto e assassinato. Mesmo as palavras e os conceitos são diferentes. Do contrário, mesmo a masturbação (masculina) e a menstruação (evidência da ausência de concepção) seriam considerados assassinatos também, o que reduz o problema ao absurdo e parece ridículo.

Eu não seria a favor do aborto em uma sociedade ideal onde todos tivessem condições de criar seus filhos. Mas dado que enfrentamos neste momento um problema e superpopulação, além dos problemas sociais -- nesta sociedade em que vivemos -- onde ter um filho normalmente exige uma quantidade de recursos que os pobres muitas vezes não apresentam, sou a favor.

De repente sou eu que estou errado tbm, sei lá. Acho que o assunto exige uma discussão bem mais profunda.

 
At 8:35 PM , Blogger Rodrigo said...

Então, por que a moral humana tem tantos pontos em comum nos diferentes povos? Se a moral viesse mesmo da religião ou da filosofia, seria de se esperar que variasse bem mais. O que a psicologia evolutiva tem mostrado, pelo contrário, é que há uma base biológica para a moral, e a ciência pode explicá-la, buscando assim um conjunto de regras sociais mais conforme os nossos instintos, e não tão deformantes quanto muitos têm sido.

Eu discordo que um ser no ventre não seja vivo. Um espermatozóide é tão vivo quanto um zigoto ou um adulto, a questão é: quão imoral é tirar a vida de um espermatozóide, um zigoto ou um adulto. Pra mim parece óbvio que a moralidade é linear, gradativa - matar um recém-nascido é um crime semelhante a abortar um feto de 8 meses e meio. Abortar um embrião de duas semanas é mais leve, e matar um adulto é mais pesado. Isso parece ser o que a moral biológica diz, justamente porque parece ser o que o senso comum diz. Se todas as moralidades do mundo variarem "em torno" dessa moralidade biológica, talvez possamos demonstrar que ela existe, e isso seria um primeiro ponto para adotá-la como padrão internacional, acredito.

Acredito também que a natureza dotou as mulheres do instinto de maternidade, justamente para quererem os seus filhos. Se uma mulher não quer o seu filho, ela deve ter uma boa razão pra isso - e devemos querer saber e buscar compreender essa razão antes de forçá-la a ter a criança ("valorizar a vida" deveria ser valorizar a qualidade de vida da mãe, e isso é quase impossível de ser medido - valorizar a vida não é apenas deixar nascer todos os fetos, nem mesmo numa sociedade ideal. Digo isso porque alguns índios vivem quase num éden e ainda assim têm suas plantas abortivas usadas em situações bem compreendidas pelas pessoas envolvidas).

 
At 5:53 AM , Blogger Chico Prosdócimi said...

Nunca disse que a religião não tinha pontos em comum entre os povos. Vc foge do centro da discussão e não discute os pontos que coloquei e sim os pontos que vc quer discutir.

Se um espermatozóide é tão vivo quanto um zigoto ou um adulto, vc considera que masturbação é igual a assassinato. Imagino que vc deveria estar na cadeia há muito tempo. Eu também e provavelmente toda a população humana masculina. (Masturbação feminina não é assassinato.)

Não sei se concordo com essa escala gradativa, pq normalmente considera-se que matar uma criança é moralmente pior do que matar um adulto. Vc fala do feto e do adulto, mas pula a criança para fazer válida sua teoria.

A natureza não dotou as mulheres "para" nada; nem para quererem seus filhos. Simplesmente aquelas que queriam filhos, acabaram tendo-os e cuidando deles melhor... assim eles sobreviveram mais que os outros e passaram esses alelos gênicos pra frente. Vc é darwinista ou não é?

Interessante o fato dos índios usarem plantas abortivas. Como funciona isso? Eles discutem na comunidade se o aborto de determinada criança deve ou não ser feito e então dão a erva pra mulher. Enfim, imagino que a própria mulher possa encontrar a erva no mato e comê-la ou fazer um chazinho.

 
At 5:29 PM , Blogger Rodrigo said...

Nem eu falei que vc tivesse dito que a moral (não a religião) não tenha esses pontos em comum. Realmente, tem certas coisas morais que são bem óbvias, e elas não vêm da religião, nem da sociedade de uma época e lugar, mas parecem vir da biologia humana. Isso é que é interessante, essas "coisas morais óbvias" parecem ser universais. Por quê? Não daria pra extrair toda a moralidade daí?

Um espermatozóide é tão vivo quanto uma baleia, pois ou se é vivo ou não se é. Não existe "meio" vivo, como não existe mulher "meio" grávida. Agora, de maneira alguma tudo o que é vivo merece o mesmo respeito. Se eu pudesse salvar uma só pessoa, e tivesse que escolher entre uma criança de 2 anos e uma jovem de 18, considerando que nenhuma tivesse chance de sobreviver sem a minha ajuda, eu não pensaria duas vezes: salvaria a de 18. Isso porque já existem muito mais pessoas que sofreriam a morte dela, ela tem uma história de vida, já desenvolveu seus sonhos, e ainda tem praticamente tanta vida pela frente quanto a criança. Agora entre salvar alguém com 50 anos e uma criança, se a criança fosse um recém nascido eu ficaria em dúvida. Acho que a moralidade em se preservar a vida humana sobe até o auge reprodutivo (perto dos 18) e a partir daí vai caindo. Ninguém calcula isso na hora, mas parece que tem uns estudos psicológicos que mostram isso (O Animal Moral, do Robert Wright, se não me engano).

Não sei o que seria ser "darwinista", a partir do momento que a seleção natural é um fato muito bem documentado. Deixa de ser chato, se for assim eu não posso dizer "o vento derrubou a papelada sobre a mesa", o certo deveria ser dizer "o vento exerceu uma pressão positiva sobre os papéis, o que causou seu movimento para o lado, caindo da mesa". A natureza dotou as mulheres de instinto materno como dotou os morcegos de asas. Simples.

Não sei como funciona a discussão familiar em torno do aborto, sei que os índios conhecem plantas abortivas, e os Yanomami inclusive tem o hábito de matar uma das crianças quando nascem gêmeos idênticos (talvez sua população seja tão próxima do limiar tolerado pela endogamia que não valha a pena alimentar mais uma boca que não vá contribuir com a variedade genética, vai saber).

 

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