Wednesday, December 19, 2007

Por que estudar chinês

Sempre fui amante do conhecimento, seja pela sua utilidade prática, seja pela beleza abstrata que todo saber traz em si quando se completa. Desde cedo fui aprendendo inglês, a "língua universal", que estava presente onde quer que eu olhasse desde a infância. Recebi motivação da música, dos vídeo-games e da informática. Hoje, tenho acesso a um conteúdo realmente global da Internet, graças ao aprendizado desse idioma.

Agora resolvi aprender chinês, e tento entender porque alguns conhecidos consideram excêntrica, quem sabe descabida, ou supérflua, essa minha decisão. Explico, pois, o que me motivou a desejar entender essa língua tão diferente da nossa:

1) Sempre desejei conhecer uma espécie inteligente de outro planeta. Entre os livros de ficção científica que li (obrigado, Sagan, Asimov, Clarke), ficava pensando como poderíamos traduzir sua linguagem, entender e nos fazer entender. Teriam eles conceitos fundamentalmente diferentes dos nossos, intraduzíveis, alguma outra visão do universo? Se fizéssemos contato, eu não dormiria enquanto não me alistasse no rol daqueles que estudariam o novo mundo. Como não fizemos ainda nada dessa natureza, não preciso me desapontar. Há, na Terra mesmo, uma infinidade de culturas tão diferentes da nossa quanto nem é possível imaginar. Outros valores, outra forma de ver o ser humano, o mundo; tudo, enfim. O que poderia ser mais distinto que o extremo oriente? Poderia aprender qualquer língua oriental para conhecer por dentro sua cultura, mas...

2) A China é uma das nações mais antigas da Terra. Seus primeiros impérios se ergueram na mesma época da Grécia antiga e do antigo Egito, com a diferença de que só conhecemos estes últimos por vestígios, pelo material herdado por outras culturas, que aproveitaram seu conhecimento apenas parcialmente. A China se mantém uma unidade há mais de cinco mil anos, e o núcleo de sua cultura não se dissolveu nem se contaminou por conquistas externas, pelo contrário, foi a língua chinesa que se difundiu e influenciou a evolução de diversas outras línguas por todo o oriente. Se um oriental desejasse conhecer o ocidente na maior extensão possível, faria sentido que estudasse grego e latim. Para quem deseja compreender o oriente, o chinês é a língua a ser escolhida.

3) Quando comecei a aprender inglês, já fazia idéia das portas profissionais que esse conhecimento me abriria. Como, de fato, abriu. Não apenas portas profissionais, mas um mundo inteiro de conhecimento, como as pesquisas que faço na internet, nas quais consigo muito mais informação, e de melhor qualidade, em inglês do que em português. Hoje, a China já é a terceira economia do mundo, seus produtos chegam em todas as cidades do planeta, não é difícil imaginar como um profissional que saiba o chinês se destacará em qualquer mercado que deseje.

4) Depois de assistir a alguns filmes de kung fu, comecei a entender que a filosofia das artes marciais vai muito além da pancadaria. O equilíbrio entre a mente e o corpo é nítido em tudo que os orientais transmitem com sua arte, e algo que nossa sociedade materialista, capitalista, consumista, desequilibrada ocidental há muito perdeu, se é que algum dia teve.

5) Li certa vez num livro de Stephen Jay Gould, o famoso e finado paleontólogo e divulgador da ciência, que o mundo reconhecia um certo número de espécies, gêneros e famílias de animais fósseis, número este compilado a partir de uma extensa e trabalhosa revisão do material depositado em museus de todo o mundo, menos da China. Quando os dados da China foram acrescentados depois, o número de fósseis conhecidos simplesmente duplicou. Ou seja, a China, sozinha, guarda tantas espécies, gêneros e famílias de animais fósseis quanto o resto do mundo inteiro. Dá para ter uma idéia do tamanho de titã a que nos referimos, e de seu esmero quanto à aquisição e organização do conhecimento.

6) O papel, a imprensa, a bússola e a pólvora, para citar apenas quatro invenções que mudaram o mundo, vêm da China.

7) O catolicismo foi uma praga que dizimou a diversidade cultural no ocidente. Padres espanhóis queimaram todo o conhecimento dos incas, maias e astecas, por considerarem-no profano. Fizeram o mesmo com as línguas e costumes de milhares de pequenos grupos nativos das Américas. Ainda hoje mantêm uma cultura que associa o sexo com uma culpa inventada, criando intermináveis gerações de encabulados problemáticos freudianos incompletos e perplexos. Nada disso existe na China, uma vez que o budismo não parte de um conceito abstrato como o pecado, mas do conceito concreto de sofrimento, e das maneiras para resolvê-lo - caso o indivíduo assim deseje, naturalmente. Não há coerção, não há estupro da mente ou da liberdade. Não há inferno nem fantasmas a assombrar o imaginário coletivo.

8) Aprendemos a considerar a democracia como o ápice de nossa evolução social e política até o momento. Contudo, a democracia está mais para uma festa dos nobres, onde ora uma ala, ora a outra, nos governa, e todas se entendem nos bastidores e fazem seus planos para manter o povo impossibilitado de erguer o pano. Até aí tudo bem, numa monarquia ou absolutismo não seria diferente. O problema é como uma nação trata de seu futuro. Nas democracias, as táticas de governo e suas políticas só planejam para as próximas eleições. Num governo mais duradouro o planejamento se estende indefinidamente, o que parece bom. Poderia se falar de tirania, neste caso, mas a democracia é apenas a tirania disfarçada de algo melhor. O Brasil é a nação democrática onde se paga uma das maiores cargas tributárias do mundo. Temos trabalho escravo, analfabetismo funcional de mais de 70% dos brasileiros, uma das piores distribuições de renda do planeta, cerca de 4 mil homicídios por ano, índice superior a muitas guerras declaradas. Somos o quarto país do mundo em total de estradas, e o quinto em proporção de estradas NÃO asfaltadas. E mesmo nossas estradas asfaltadas são lastimáveis, e ignorando inúmeros impostos, ainda aceitamos que se cobre pedágios em estados como São Paulo - o único lugar, aliás, onde se dirige em estradas decentes neste país. Os Estados Unidos, teoricamente a democracia mais consolidada do planeta, tiveram duas eleições presidenciais fraudadas, e todo mundo sabe disso. Para concluir, onde não há educação e a mídia monopoliza a opinião pública em torno de seus interesses, a democracia não é uma instituição séria nem confiável. As pesquisas mostram que a maioria dos eleitores nos EUA não "acreditam" (leia-se entendem) a evolução biológica. E nós não estamos muito melhor. Portanto, falar mal do absolutismo socialista dos outros é fácil, mas eu já estou farto de ver só o capitalismo por dentro.

9) Cada caractere aprendido pode ser um aprendizado maior que uma fábula moral ou história do gênero. O caracter para 'ocupado', por exemplo, une os caracteres 'coração' e 'oculto'. Afinal, aquele que tem pressa está ocultando seu coração e mente de si mesmo e dos demais, e talvez por isso seja a pressa inimiga da perfeição. Outro exemplo, o caracter para 'palavra' vem dos caracteres 'crime' e 'boca', pois as palavras são crimes que cometemos pela boca. O silêncio não vale ouro?

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