Monday, January 21, 2008

Futebol do mundo

João torce para o Flamengo. Quando vai ao Maracanã assistir a um Fla x Flu, João gosta de ver um bom jogo. Gosta de ver belos dribles, ver raça, gosta de gols. Mas gosta mais quando o seu time ganha. Pode até não admitir, dependendo de quem estiver por perto, mas prefere um jogo medíocre que termine Fla 1 x 0 Flu do que um jogaço que morra no empate.

José também é flamenguista, mas não é roxo. Ao contrário de João, prefere um bom jogo que propriamente a vitória. Claro que a vitória é importante, mas para ele nada paga um jogo medíocre. Melhor nem ir ao estádio.

Posso perguntar: qual a relação entre futebol e religião? A religião exige que seu fiel seja um João. Josés não são bem-vindos. Josés acabariam com as religiões.

Ora, toda religião é uma mitologia, ou seja, o estudo de símbolos e mitos que ordenam e justificam a vivência social. Para José, o que Jesus falou tem muito a ver com os ensinamentos de Buda ou do hinduísmo. Não importa se é verdade o lado metafísico da história, se há um Deus nos olhando ou se a tal Trindade é mesmo santíssima. Importa viver com justiça e dignidade, e aproveitar das religiões o que seus ensinamentos têm de melhor. Ele sabe ver a moral da história sem precisar acreditar nas fadas. Para João, se as fadas não existirem, a história perde a moral.

Mas será que se trata de José ser mais inteligente que João? Ou apenas sua educação foi diferente? De alguma forma, José percebeu as inconsistências das religiões "reveladas" (judaísmo, cristianismo e islamismo), e sua ânsia de verdade foi mais forte que o hábito de fechar os olhos e crer cegamente. ("Crer cegamente" não é já um pleonasmo? Como "crer" a não ser fechando os olhos para as evidências contrárias à crença?) Aos seus olhos, as pessoas que acreditam em uma única religião (ou que preferem o Flamengo ao futebol em si) só o fazem porque têm algo que precisam esquecer. Precisam de um consolo, um remédio forte que as faça esquecer como viveram suas vidas aquém dos seus sonhos.

Cada João vive sua vida na expectativa de agradar ao senso de "normalidade" dos demais, e assim nunca ousam derrubar tabus em prol da própria felicidade. Vivem segundo as regras, mas um dia percebem que sua vida foi menos do que poderia ter sido, e como conviver com a própria consciência se não houver outra vida, outra chance de fazer melhor?

Não satisfeitas com a vida que escolheram para se tornarem aceitas, para serem "normais", precisam da esperança numa vida futura para não enlouquecerem. Precisam de uma segunda chance, de preferência num mundo imaginário, onde talvez poderão resolver os seus problemas. Afinal, neste mundo é impossível resolver seus problemas e continuar "normais" aos olhos dos outros, porque nossos problemas nascem quando ignoramos que somos todos diferentes, únicos.

Seu Deus é como o grito de Goooool! - a única coisa justa num mundo injusto.

O que talvez ele (o João) não saiba, é que sua condição é milenar e hereditária. Seu Deus é ao mesmo tempo a saída e a entrada do labirinto. Os velhos têm em Deus sua sanidade, mas também a insanidade dos jovens. A partir do momento em que ligam sua moral à infalibilidade desse deus, emperram as engrenagens - roubam dos jovens o direito de compreender com originalidade a moral de um mundo em mutação, imprevisível, impraticável.

O mundo com Deus obriga os rebanhos a viverem conforme uma lei, quando cada coração traz em si uma lei particular. Incapazes de seguir esta lei própria, só o que restará será a espera de um outro mundo, um mundo que aqui foi inviabilizado.

A solução para o impasse é transformar Joãos em Josés: aprender a conciliar muitas religiões, como conciliamos muitos ditos populares por vezes contraditórios (quem espera sempre alcança, mas quem não arrisca não petisca, por exemplo). Ao mesmo tempo, aprender a tratar as religiões como mitologias, e não como verdades supremas. Num país "laico" como o nosso, como é aceitável que se trate as religiões de origem africana, como o candomblé, como superstições, e o catolicismo como verdadeiro, respeitável, sagrado; seja na mídia, nas escolas ou dentro dos órgãos públicos?

A constituição está aí, a ciência e a filosofia estão aí, basta vontade de quebrar o ciclo vicioso milenar que dá suporte a preconceitos e mutila as possibilidades de tantas vidas. Viva o pensamento livre! E viva o futebol arte!

1 Comments:

At 6:11 PM , Blogger Xandin said...

*Palmas*

 

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