Saturday, March 24, 2007

Prevaricação e costumes

Estou pensando em mandar um memorando para meus chefes aqui em Manaus e em Brasília.

MEMO xxx/2007 - IBAMA/NUC/AM


Prezados senhores,

Discuti recentemente sobre o direito ao vestuário no órgão público, pois considero seus direitos de conduta deturpados. Num país tropical, ganho o bastante para ter um carro, e devo tê-lo com ar-condicionado - é seu refrão. Temos o bastante para condicionar o prédio, então para quê construi-lo ventilado, como faziam os "índios" até bem pouco tempo?

Vivemos a noite da história, as conseqüências da aglomeração industrial e econômica. Antes éramos mortos por cobras, não por balas. Analfabetos, mas comunitários. Hoje, a autoridade, que jamais em nosso país primou pela competência, EXIGE que ao menos na APARÊNCIA sejamos competentes. A competência de fato é acessória, prescindível; a aparente, não.

O direito à diversidade é mínimo. As "pontas" são sempre, ininterrupta e invariavelmente ignoradas. Brasília detém porção considerável (se tanto) do conhecimento técnico do órgão, mas NADA do prático. Enviam seus representantes aos quatro cantos, mas estes só repousam nos melhores pousios, só comem e bebem do melhor. Que distância da população para a qual trabalham, que dizem representar! Representamos apenas pessoas bem vestidas, de hábitos aprazíveis e calculados, de interesses previsíveis, e que não têm contido o desmatamento que a história registra.

Talvez menos mal que nada. Mas estou farto de ver a incompetência camuflada, permitida, tolerada. Cansei de ver pessoas torpes acumulando poder, pessoas inúteis que só batem papo, viagens a serviço apenas por diárias, serviço apenas por viagens, ações por interesse, projetos sem resultado, quando não fingidos, benefícios, opacidade, omissão, desordem, desinteresse, apatia, intrigas, desperdício, INCOMPETÊNCIA. Estou farto das piadas de amigos e colegas, que vêem, como todo brasileiro, o funcionário público como uma corja ultrapassada e rica, uma corja de raposas interesseiras, auto-interessadas, corporativistas e incompetentes.

Ações simples levam décadas; simples respostas, meses.
Tarefas que deveriam ser básicas, anos.

As ONGs são muito mais eficientes que nós, pois costumam pôr em primeiro lugar o respeito ao funcionário, seu treinamento, NÃO sua mordomia.

A maneira de se vestir, por exemplo, camufla muita coisa. Acreditar e praticar que num órgão público deva-se trajar algo SUPERIOR ao "populacho" é apenas uma maneira de disfarçar nossa inaptidão congênita como órgão. Mas não há discussão, tudo vem de outros ministérios, de antigos e longínquos ancestrais, além daquele território sobre o qual deve inquirir o funcionário padrão - quase todos eles. Quem quer falar sobre a própria incompetência? Sobre todos os atrasos, ausências, omissões e prevaricações que se vê quase todos os dias? Sobre os abusos de autoridade, as punições só para os pobres, o fisiologismo político, todo o mau planejamento, má gestão, má educação, o despreparo de quase todo o corpo técnico, o mal-uso e desperdício do recurso financeiro, que deveria ser usado para QUALIFICAR nossa mão-de-obra, ao invés de bancar os passeios dos considerados de Brasília e de seus quintais. Não estranha que o orçamento da SUPES-AM tenha sido cortado em ainda mais 30%. Para onde ia esse dinheiro? Que cortem ainda mais de Brasília!

O poder absoluto corrompe absolutamente; o poder público corrompe em público. Mas o povo com seu pão e circo não quer saber. Mal distingue o funcionário público do político corrupto; são mesmo muito parecidos, em sua incapacidade de resolver problemas e seus bolsos cheios. Será que esse povo desrespeitado nos direitos mais básicos vai mesmo se preocupar se o servidor que o atende está de bermuda? Numa cidade onde é este o traje habitual de uma parcela expressiva da população? Ou se o atendeu com gentileza e préstimo? Que lhe foi útil, não ficou apenas revolvendo a burocracia e empurrando o problema aos outros - práticas das mais comuns? Que soube ver resultados, meios e fins para a CONSERVAÇÃO, não apenas a LEGISLAÇÃO?

O serviço público é engessado, paga bem seus funcionários para que aceitem o status quo e o modus inoperandi. Estou farto disso tudo. Mas é difícil abdicar de uma vida tão doce, tão endinheirada e pouco exigente. Alguns de nós trabalha muito sem pressão alguma, mas são poucos, e a pressão também. Logo, trabalha-se pouco. Se fosse um direito comum ao brasileiro, ótimo. Mas às vezes sinto vergonha por todos nós. Não vou abandonar meus pais com quase sessenta anos e ainda pagando aluguel. É a única razão que me impede de pedir demissão. Mas posso ter outro emprego, embora saiba que na iniciativa privada teria muito menos tempo que dedicar às belas-artes, à filosofia, à ciência.

Fica aqui então um desabafo, que seja para deixar registrado um período de nossa história, meu ponto de vista. Que sejamos todos mais eficientes e voltados a resultados do que temos sido até aqui. Agradeço a atenção dispensada e subscrevo-me.

Rodrigo de Loyola Dias
Analista Ambiental/NUC/AM.

Thursday, March 22, 2007

Chuva


Finalmente a chuva cai. Aqui, é no fim da tarde que as águas e as idéias costumam cair sobre o papel. Uma chuva de verdade sempre gera chuvas posteriores, sejam de idéias, de acidentes, sensações, divagações arbitrárias, seja de vida - como agora na floresta.

A chuva de agora, de hoje, desses dias, de sempre, é a mesma que abastace a floresta, e que dela dependeu e depende.

A chuva, nos momentos de caminhada, pode ser leve ou pesada, pode ser boa ou não para a mente do andarilho, mas é sempre algo de nobre.

Se deixada desligada, despreocupada, a mente do viajante de repente faz brotar a idéia às vezes tão aguardada, como chuva que cai sozinha. Desligada, a mente permite ao andarilho, a seu mero corpo, se misturar ao ambiente - à mata, à chuva que cai.

A chuva, no fim das contas, pode pender do céu, verter-se em água por uma linha para dentro de um copo, e umedecer assim as idéias desse mesmo viajante.

Especializar-se?

Prefiro entender algo sobre ciência, arte, política mundial, filosofia, história, línguas, economia, sobrevivência na selva, geografia, literatura, astronomia, música, cinema, o cotidiano do país e do mundo, jornalismo, informática, biologia, religiões, lógica, matemática, botânica, zoologia, fotografia, geoprocessamento, psicologia, fisiologia, física, meteorologia, etc., do que me especializar em apenas uma dessas áreas, ou outra qualquer.

Desabafo

Dei duas voltas no prédio e não encontrei uma única razão pela qual me orgulhasse em ser humano. O que vejo todos os dias fere meu sentimento social de um ser agregado. Ainda se as pessoas se agregassem feito os bichos que somos, segundo uma hierarquia natural, mas ainda conscientes de nossa identidade como espécie, mas os cachorrinhos de madames são mais "gente" que meus vizinhos.

Se ao menos a educação fosse uma vacina contra essa cegueira, mas não: o cidadão educado e culto prefere sua TV à vida do próximo, e mesmo os cristãos matam por vingança quem só se parece com o miserável que estuprou alguém, talvez sua mãe, algum dia.

Um menino foi arrastado por quilômetros, mas enquanto um país é arrastado à penumbra do descaso e da injustiça por séculos, a classe média se lamenta com pesar a perda de mais um dos seus, sem querer enxergar a raiz do problema.

Cada milhão desviado por nossas elites, cada dente perdido para o abandono, cada mente vazia, desperdiçada e contaminada pela mediocridade do que foi há cinco décadas a esperança de uma multidão mais informada (leia-se TV), tudo isso é omitido em nome do choro jubiloso de uma elite que quer ter do que reclamar. Que precisa ter. A mesma elite que, incrédula, pergunta para onde vai nosso país, só porque precisou esperar dez horas no aeroporto, é a elite que não tem um parente esperando dez anos pelo fim de uma pena que já acabou, nem precisa esperar dez anos pela falsa esperança de que uma escola pública transforme seus filhos em gente que não apanhe da polícia, apenas por parecer suspeita.

Em meio a tudo isso, o que restou senão a noite misteriosa, a noite dos tempos, das dúvidas, da sociedade moderna, caótica e infeliz, cambiante de vultos e sombras, negra em seus mistérios naturais, silenciosa pela exceção dos grilos e corujas; bela e majestosa noite, que até a ti querem pôr fim. Seus sapos e suas lagoas devem ceder à pressão moderna, à modernidade que era até Thoreau apenas medíocre, e que hoje se mostra nociva ao olfato, à visão, à toda sensibilidade externa aos muros que se pretendem incólumes. Mas o seu dia há de chegar, cúpula nefasta, se não na esperada e justa revolução, se não na aurora do apocalipse que nos atacará a todos, ao menos no desgaste eterno do medo; medo de uma sociedade que não tem nada a perder, e que pare mil filhos por segundo, dispostos a atemorizar até o último beneficiário deste sistema vil. Quem tem cu tem medo, mas quem acha que caga sabonete, que tema o terror enquanto viver.

Saturday, March 17, 2007

Não sei o que é bom

Dizem que não sei o que é bom. Dizem que minhas palavras às vezes parecem sem sentido. Julgam-me louco, por vezes, ou só inconseqüente. Mal sabem que dentro de mim dançam demônios bons e maus, curiosos e extravagantes.

Dizem que gosto do que não presta e que coleciono o que não lhes diz respeito, mas que me importa se o digam, ou que deixem de dizer? Que me importa? Apenas sei que o que eu quero é o que sempre quis, ainda que eu mude. É assim? Não mudamos, mesmo aprendendo? Talvez sim, quem sabe ao certo?

Dizem que não sei distinguir classe de desgosto, fumaça de incêndio, causa e conseqüência, mas digo que a última vez que olhei as estrelas elas estavam como sempre estiveram, e isso ainda me assusta e me maravilha.

Dizem que não sei o que quero, ou que quero o que não sei. Pode ser. Mas também quero o que conheço e o que desconheço, embora prefira este último.

Dirão que não dizem nem nunca disseram tais tartufices, e pode ser verdade. Talvez tenham dito sem querer, como faz quem diz sem pensar, só por dizer.

Saturday, March 10, 2007

O primo rico e a gramática pobre

Uma vez, dentro de uma aldeia de índios, eu tentava completar um dicionário que me ajudasse a entender a língua deles. Era comum que uma pessoa desse um nome de coisa ou animal ou planta de uma forma, e outra pessoa, do lado oposto da aldeia, desse uma variação, às vezes uma vogal ou uma consoante, os duas, diferente. Poderiam estar me enganando, como podia mesmo haver duas formas de falar a mesma coisa, como nós, ao dizer vasculante e basculante, ou sovaco e sobaco (e até mesmo suvaco e subaco, tudo se referindo à mesma axila). Lembro que comecei a argumentar com uma senhora, dizendo-lhe como outra pessoa havia dito diferente, e perguntando qual versão, possivelmente, estaria mais "certa". Ingenuidade a minha. Ela poderia continuar me enganando, como podia continuar sem entender o que eu queria dizer com a palavra "certa".

Crescemos numa sociedade que abriga e ama duas coisas que os índios desconheciam no tempo em que essa senhora aprendia a falar: a escrita e gente rica. Hoje deve haver uma relação entre a renda mensal de um indivíduo e sua pontuação no quadro Soletrando, do Luciano Hulk na TV, onde o objetivo é soletrar corretamente o maior númer de palavras, e o prêmio - cobiçado pelo que parecem ser estudantes menos favorecidos - cem mil reais. Outra coisa é pensar que a escrita tenha, historicamente, servido ao propósito de alargar, como uma cunha e martelo, o abismo que separa pobres de ricos; dominados e oprimidos de seus senhores e algozes.

Não havia versão "certa", com a qual eu pudesse "melhorar" o meu dicionário. Para melhorá-lo, eu devia anotar as duas ou mais versões existentes para cada palavra; de preferência, anotar também quantas pessoas falam cada versão, seus graus de parentesco e, num requinte antropológico, as posições de suas casas dentro da aldeia.

Uma coisa interessante que ocorre neste lugar é que se usa as palavras "gíria" e "língua" (no sentido de linguagem) como equivalentes. Ou seja, um índio dessa aldeia pode caminhar sete ou oito dias e chegar numa aldeia onde já se fala uma gíria bastante diferente. Várias palavras não guardam nenhuma relação entre si, embora denotem os mesmos sentidos. É o caso, por exemplo, de xita e xori, ambos significando irmão, companheiro, em diferentes dialetos Yanomami.

Quando perguntada acerca das diferentes palavras, e qual devia ser "preferível", a senhora respondeu apenas o que já havia dito, e que era assim que se dizia. Tive a impressão que ela não captou o meu sentido de "preferível", ou "melhor" ou "mais certo". Essas coisas, se é que existem para ela em relação à linguagem, existem de uma maneira bem distinta da qual existem para mim. Para mim, como para as pessoas da minha sociedade, decorar o máximo de palavras vale uma casa na praia e um carro do ano. Para ela, representaria apenas isolar-se de sua vizinha de frente, e dizer todas as palavras da mesma forma, a vida inteira.

Quem não conhece alguma história de um romance nascente, estrangulado pela mera menção de um "menas", ou qualquer variação que fira os princípios "pétreos" da gramática? Como se as línguas não mudassem!

Em nossa sociedade, nenhuma habilidade é tão valorizada quanto a boa escrita. Um "menas" dito no ar acaba sendo esquecido (e nem sempre é), mas escrito torna-se fixo, imutável, e decide o destino de seu autor, na escola, no trabalho, na vida.

As côrtes francesas reuniam-se em salões luxuosos e se sentiria pouco à vontade se entre eles uma única pessoa se vestisse ou portasse como um plebeu. De lá para cá não mudamos coisa alguma, e chega-se ao cúmulo de proibir a entrada de pessoas de bermuda ou camiseta em repartições públicas, cujos funcionários pertencem à elite financeira do país. Os legisladores, outra elite ainda mais rica, usam de inúmeros rodeios lingüísticos para ocultar seus interesses reais nas entrelinhas das leis que fazem "como representantes do povo".

Saber usar o ponto-e-vírgula, ou se as aspas finais entram antes ou depois do ponto, tornam-se armas fabulosas nas mãos de quem valoriza posses e discrimina a diversidade. Permite aos donos do poder garantir que os seus filhos, educados em meio às "boas maneiras", ganhem dos filhos dos outros por vias legais e tidas como respeitáveis. Os concursos públicos, por exemplo, aprovam em sua maioria filhos da alta roda, vários com sobrenomes estrangeiros exóticos, poucos (ou nenhum) Josés da Silva e Marias da Conceição. E, uma vez concursados, esses idôneos funcionários, servidores da nação (!), haverão de se divertir em sua própria côrte, longe dos olhares humildes que não sabem soletrar, e um dia terão poderes para diminuir a desigualdade, mas exigirão que os procuradores vistam ternos, e que os caipiras não sejam admitidos em suas salas com sua roupa de costume: bermuda e chinelo.

Até aqui a gramática tem servido bem a seu propósito de unir o país, para poder fatiá-lo de alto a baixo, num corte preciso e firme que poucos pobres poderão ultrapassar.

Friday, March 09, 2007

Não se engane, meu jovem, de acreditar que o mundo é tão vasto como dizem os livros de história. Os livros de história não são a História, mas só a versão de quem ganha as guerras. E as guerras são inevitáveis, ou sempre foram, então o que interessa mesmo é o presente. Como foi que chegamos até aqui? De onde viemos e para onde vamos? perguntas secundárias. O que fazer? eis a questão.

Não poderia também contar o segredo do mundo, ou vocês não acreditariam, ou talvez minha vida corresse sério risco. Mesmo sem eu saber. Prefiro então contar-lhes amenidades, preciosidades de quem viu o que não está na TV nem no rádio, nem nas bocas que insistem em dizer o desnecessário.






Indo direto ao ponto:

Existe um ponto? Eu, particularmente, estou acostumado com a geometria espacial, e gosto de ver nas coisas - planos -, no mínimo - linhas. Eixos.

O mundo é desconhecido da maioria dos homens. Alguns poucos aventuram-se em décadas e décadas de mergulho na natureza das coisas, de coisas mínimas, e tornam-se especialistas, e têm a resposta - ou não - para as questões que decidiram investigar. Mas quem tem a resposta para as questões que todos perguntamos? Quem bocejará amanhã, cansado da existência? Eu acredito que estarei tão curioso e insatisfeito como estou hoje, porque nenhum homem jamais conquistou nada, a não ser haréns e a capacidade de construir tumbas do tamanho de montanhas. E eu preferia pular de uma ponte que dedicar a minha vida a construir qualquer túmulo.

Sobram especialistas, e ninguém vê a realidade inteira, muito menos com olhos sensatos, úteis, vantajosos a não ser para si mesmo; o egoísmo ancestral. Sobram palpiteiros, sobra trabalho; uns empurram, todos empurram, poucos buscam resolver o que surge. Uma pedra no caminho, ou no sapato, e memorandos já são assinados. Enquanto os negros carregam o país nas costas. E em silêncio.


Então, há um ponto?

O futuro é um ponto, mas apenas porque projetamos sua existência futura como inevitável. Contudo, cada pessoa vê o futuro como um ponto diferente, dentro de um espaço, então é bom começarmos a nos entender, para podermos decidir melhor como será o futuro, o nosso futuro. Tudo aquilo dentro desse espaço. Precisamos, quem diria, olhar para fora dos nossos umbigos para salvar os mesmos umbigos...

E se não me der dois real no seu umbigo, eu pago a faca que comprei hoje.

Wednesday, March 07, 2007

Sons

"Mas enquanto nos limitamos aos livros, ainda que os mais seletos e clássicos, e lemos apenas determinadas linguagens escritas, por si mesmas dialetais e provincianas, corremos o risco de esquecer a linguagem que todas as coisas e acontecimentos falam sem metáfora, e é, em sua singularidade, abundante e exemplar. Muita coisa é impressa, mas pouco é o que deixa impressão. Os raios que escoam através da persiana não serão mais lembrados quando a persiana for retirada. Nenhum método nem disciplina suplanta a necessidade de permanecer sempre alerta. O que é o curso da história, a filosofia, ou a poesia, por mais selecionada que seja, ou a melhor sociedade, ou a mais admirável rotina de vida, em comparação com a disciplina de olhar incessantemente o que existe para ser visto? Leitor, mero estudioso, observador, o que se há de ser? Lede vosso destino, vede o que está a vossa frente e marchai para o futuro.

"No primeiro verão não li nenhum livro; cuidei dos feijões. E muitas vezes fiz até coisas melhores. Houve ocasiões em que eu não era capaz de sacrificar a beleza do momento presente a qualquer trabalho intelectual ou manual. Gosto de uma larga margem para a minha vida. Às vezes, numa manhã de verão, após o banho de praxe, do amanhecer ao entardecer sentava-me na ensolarada soleira, absorto num devaneio, em meio aos pinheiros, nogueiras e sumagres, em completa solidão e serenidade, enquanto os pássaros ao redor cantavam ou esvoaçavam silenciosos através da casa, até que o sol batendo na janela do lado do poente, ou o barulho de um carro na longínqua estrada, me fizesse lembrar a passagem do tempo. Crescia eu nessas temporadas que nem o milho durante a noite, e elas eram melhores que qualquer outro trabalho feito com as mãos. Não representavam tempo subtraído à minha vida, e sim um tempo além e acima de minha quota habitual. Percebia o que os orientais chamam de contemplação, bem como renúncia aos trabalhos. Na maioria das vezes, não me importava como as horas passavam. O dia avançava como a iluminar algum trabalho meu; era manhã, e vejam, já é noite, e nada de memorável acontecera. Em vez de cantar feito os pássaros, sorria silenciosamente por minha incessante boa sorte. Como o pardal pousado numa nogueira diante da minha porta tinha o seu chilreio, assim tinha eu o riso reprimido ou o sustado gorjeio que ele poderia ouvir fora do meu ninho. Meus dias não eram os dias da semana, com o carimbo de divindades pagãs, nem eram esfatiados em horas ou estilhaçados pelo tique-taque de um relógio; porque vivi no estilo dos índios Puri, de quem se diz que "têm uma única palavra para ontem, hoje e amanhã, e que expressam a variedade de significados apontando atrás para ontem, em frente para amanhã e em cima da cabeça para o dia que passa." Sem dúvida, isso para meus concidadãos era pura ociosidade; mas se eu fosse julgado pelo padrão dos pássaros e das flores, não seria condenado. É bem verdade que um homem deve encontrar razões em si mesmo. O dia natural é muito calmo e dificilmente reprovará a indolência do homem.

"No meu modo de viver, levava pelo menos essa vantagem sobre os que se viam obrigados a procurar fora sua distração na companhia das pessoas ou no teatro, pois minha própria vida tornou-se a minha distração e nunca deixava de apresentar novidades. Tratava-se de um drama com muitas cenas e sem desfecho. Na verdade, se estivéssemos sempre ganhando o próprio sustento e regulando nossas vidas de acordo com o melhor modo recém-aprendido, nunca seríamos incomodados pelo tédio. Segui vosso gênio bem de perto e ele não falhará em vos mostrar uma perspectiva nova a cada hora. A lida doméstica era um agradável passatempo. Quando o assoalho estava sujo, levantava-me cedo, e colocando todos os móveis fora de casa; na grama, cama e colchão juntos, jogava água no chão, aí espargindo areia branca do lago e com uma vassoura esfregava-o até deixá-lo alvo e limpo; e na hora em que as pessoas do povoado estariam tomando o café da manhã, o sol já tinha secado minha casa suficientemente para me permitir entrar e prosseguir com as minhas meditações, que assim quase não eram interrompidas. Era agradável ver todos os meus haveres domésticos em cima da grama, empilhados como trouxa de cigano, e a minha mesa de três pés, da qual eu não retirara os livros nem caneta e tinta, ali bem no meio dos pinheiros e das nogueiras. Pareciam rejubilar-se de estarem lá fora e como sem vontade de retornarem à casa. Às vezes dava-me a tentação de estender um toldo sobre eles e instalar-me ali. Valia a pena ver o sol brilhar sobre essas coisas e ouvir o vento soprando livre sobre elas, já que os objetos familiares parecem bem masi interessantes ao ar livre do que dentro de casa. Um pássaro pousa num ramo próximo, sempre-vivas crescem debaixo da mesa e rebentos de amora preta enroscam-lhe as pernas; por todo canto espalham-se pinhas, ouriços de castanha e folhas de morangueiros. Parecia o meio de essas formas virem a trasferir-se para nossos móveis, mesas, cadeiras e camas que um dia estiveram no seu ambiente."

- Walden ou A vida nos bosques, de Henry David Thoreau.

Afronésia sinestésica

Quando Pedro chegou em casa, ao colocar as chaves sobre a mesa percebeu que seus olhos sem querer caíram sobre o cinzeiro vazio. Mas Pedro tinha certeza que o deixara cheio pela manhã, e Pedro não tinha empregada e morava sozinho. Ali como estava, em pé, Pedro ficou por um minuto inteiro pensando no que podia ter acontecido. Como nada lhe viesse à cabeça, ficou parado ainda outro minuto, e outro, até que desistiu de pensar e foi tomar banho.

Debaixo do chuveiro, Pedro tentava não pensar em nada enquanto a água lhe caía levemente fria sobre a cabeça quente, a cabeça que começava a não pensar mais no cinzeiro. Ao tentar se ensaboar, porém, Pedro notou que também a saboneteira estava vazia. Mas como, se ele tomara banho pela manhã? Claro, um ladrão. Roubou até o sabonete. Ao menos havia xampu, e ele se lavou assim mesmo, indignado mas com uma ponta de dúvida: e se o invasor ainda estivesse em casa? Poderia repetir-se a apoteose Hitchcockiana de Psicose? Ou o psicótico, ali, era ele? Desligou o chuveiro e foi investigar a casa.

Pedro não tinha muitos móveis, então levou apenas dois segundos vasculhando o modesto guarda-roupas - só se fosse um anão, pensou - e debaixo da cama. Nada. O único móvel da copa era a geladeira, que ele não abriu pelo ridículo da imagem que poderia conter, caso sua suposição estivesse correta. Preferiu primeiro olhar o quarto de depósito - ouviria a geladeira barulhenta se abrindo - mas sem tirar o olho do caminho da cozinha, caso contrário um invasor vidente poderia esgueirar-se novamente até o seu quarto no exato instante em que ele se abaixasse para olhar dentro do antigo baú jogado às baratas. Antes, então, de abrir o baú, vendo que o depósito estava vazio, ele foi até a cozinha para constatar sua solidão, e por último olhou o baú e a geladeira (!), ambos livres de anões e outros seres semi-mitólogicos, dos quais Pedro nunca tinha duvidado completamente.

Olhou as fechaduras e os trincos das janelas, tudo em ordem. Algo mais o incomodava, além do sumiço do sabonete e do esvaziamento do cinzeiro. Quem esvaziaria o cinzeiro? Tomando o objeto novamente à mão, Pedro notou que estava, inclusive, tão limpo como se nunca houvesse sido usado. Talvez ele estivesse ficando louco? Como seria a loucura, assim, vista por dentro? Os loucos sabem que são loucos? Talvez justo aquele obscuro funcionário da firma, aquele que toma café sozinho voltado para a parede, todos os dias no mesmo horário, fosse um louco que conseguia camuflar a sua loucura, e no fundo só mesmo ele estaria certo de sua loucura... Pedro continuava de pé no meio da sala, em suas divagações, quando percebeu que faltava algo. A sala parecia maior. Faltaria algo mais? Sim, faltava. Algo muito pior que o sabonete ou as medíocres cinzas de um cinzeirinho xulo. Não havia mais lâmpada. O teto era apenas uma parede a mais, lisa, branca e quadrada, misteriosamente repousando sobre sua cabeça. Nunca houve ali lâmpada alguma. Um tremor percorreu-lhe a espinha, um tremor quente e macio, quase confortável.

Percebeu que não havia também interruptor, o que era óbvio. Por que uma sala sem lâmpada precisaria de um interruptor? Pedro foi de novo até o quarto, e percebeu que a lâmpada também nunca havia existido ali, nem em qualquer outro lugar da casa, nem seus respectivos interruptores, nem, Pedro verificou apenas alguns instantes depois, as tomadas elétricas, o que não era tão óbvio quanto os interruptores. Pedro sentou-se na cama, para pensar, mas levou uma queda tão espetacular que sequer notou o fato de que não havia mais cama. Pensou que sentara no lugar errado, e foi sentar-se no certo, porque já acreditava que sua visão estivesse lhe pregando peças. Mas não estava, e ele caiu de novo, ficando ali meio sentado e meio deitado no chão empoeirado do que fora poucos minutos antes o lugar em que procurara o suposto ladrão das cinzas do cinzeiro.

Pedro, na verdade, nunca tinha sido um místico; até aquele dia. Cogitou se o instinto de associar o sumiço de cinzas e sabonete primariamente a um ladrão não teria sido muito mesquinho de sua parte. Por que não um deus travesso? Ou um demoniozinho desses que devem pulular por aí? Ou talvez duendes, sacis, mapinguaris, bruxas, gnomos, ogros, elfos, etês, chupacabras, caboclos d'água ou políticos honestos, sim, quem sabe não teria sido um político honesto quem entrou na sua casa para dar seu sabonete aos menos favorecidos? Agora o sumiço da cama até fazia sentido, já que apenas políticos poderiam ser tão experientes para fazer desaparecer tão rápido um objeto grande e indiscreto como uma cama de casal.

Por fim Pedro se cansou de especular e foi até a geladeira tomar água, mas se arrependeu de sua ingenuidade em achar que ainda haveria geladeira. Por que teria de haver? Ora, quem precisa de geladeira? e Pedro foi até a torneira da cozinha, mas já não havia nem mesmo cozinha. A porta por onde Pedro entrara vinte minutos antes já não existia, e a parede parecia encarar Pedro como uma esfinge, pronta a devorá-lo ali mesmo, caso ele insistisse ou hesitasse. Pedro correu até seu quarto e sentou-se no chão, amedrontado. Reparou que até a poeira já não existia mais, e que o chão brilhava como se tivesse sido encerado por centenas de enceradeiras trabalhando por meses a fio. Ainda assim Pedro só pensava se devia ou não ir ao depósito, verificar o que teria sido feito de seu velho baú. Poderia não ir, e assim quem poderia dizer se o baú ainda existia ou não? Talvez a falta de uma testemunha fizesse a pergunta perder o sentido; talvez o baú flutuasse já num éter onde não faz sentido a questão da existência. Talvez tudo tivesse sido sempre assim, e apenas agora ele tivesse notado, num dia comum, em que não bebera nem fumara, nem discutira com seu chefe, nem tentara a sorte na loteria, nem cantara nenhuma garota delicada e agradável que não chegou a passar pela esquina em sentido contrário. Se é que tudo isso existe, Pedro pensava, e já não havia porta ou banheiro ou quinas nas paredes. Só a janela tinha sobrado, mas talvez fosse tarde demais. A janela fitava Pedro com uma interrogação.

Pedro levantou-se para abrir a janela e sair dali, mas parou no meio do caminho, perplexo. E se abrisse e o mundo também não existisse mais? E se o mundo nunca tivesse existido, de fato? Talvez ele mesmo, Pedro, não existisse. Mas então sua existência deveria ser a imaginação de alguém, ou um sonho, e ele deveria, portanto, ser parte desse alguém que sonha ou imagina. E assim, mesmo sem ser ele mesmo, apenas sendo algo, ou ainda parte de algo, talvez parte de uma parte de outra parte, quem sabe infinitamente, Pedro podia ainda conceber a realidade por trás daquela janela. Desde que fosse algo. Pedro fechou os olhos. Poderia nunca mais abri-los. Poderia deitar-se ali e dormir um sono profundo e fazer uma greve de fome involuntária, e morrer lentamente, e assim tudo faria sentido, mas Pedro não queria sentido, ele queria o seu mundo de volta.

Abriu a janela.

E não havia nada lá fora. Nada. Nem luz nem sombra, nem direção nem distância, nem ar nem vento, nem dia nem noite. Nada. Pedro olhou para as suas mãos e viu que elas também estavam desaparecendo aos poucos, ficando translúcidas lentamente. E não eram só as mãos, tudo sumia. Desesperado, Pedro olhou para o seu corpo, e todo ele desaparecia ante seus olhos espantados, as juntas tremendo, as pernas perdendo força, deixando de existir, como sua roupa e as superfícies lisas e polidas que ainda formavam a câmara já indistinta que tinha outrora sido seu quarto.

Uma solidão escura envolveu sua consciência, Pedro não enxergava mais, nem ouvia, nem sentia o próprio peso. Não sentia mais o chão, nem as mãos, nem os braços. Pedro tentou em vão, uma última vez, sentir o mundo à sua volta, mas já era tarde demais; o tempo só corre uma vez, sempre a mesma vez, e já era tarde demais para ele.

Thursday, March 01, 2007

"A liberdade para mim é uma coisa muito maior e mais importante do que a ciência."

- Alfred Russell Wallace, naturalista inglês, "primo pobre" de Charles Darwin, que viajou o mundo e chegou igualmente à Teoria da Seleção Natural, base da biologia atual. Ao contrário de Darwin, que ficou perplexo pelas diferenças entre os aborígenes da Terra do Fogo e os ingleses, Wallace identificou de pronto as semelhanças dos aborígenes malaios e ele próprio. E ao contrário de esconder sua maior descoberta por vinte longos anos, como fez Charles, acabou entregando suas idéias tão logo nasceram, para o homem mais interessado em saber da existência delas, o próprio Darwin.

http://www.newyorker.com/printables/critics/070212crat_atlarge_rosen

"Não há elegância maior que a simplicidade."

- Ray M. Ransom, "microcomputer expert extraordinaire. Since 1977, the finest design and development services of embedded controllers, microcontroller, microprocessor and DSP-based systems, peripherals and software have been found nowhere else. My design philosophy, consistently and concisely applied for a quarter century, is that there is no greater elegance than simplicity. 8 bits are preferred over 16 and 16 over 32. 5 MHz clocks are preferred over 50, and 50 over 500. Assembly is preferred over C, and C over C++. The elimination of software bloat is the key to eliminating hardware bloat. The elimination of hardware bloat is the key to creating a product that rises above the cacophony of mediocrity to garner praise for innovation, performance and cost-effectiveness."

(http://www.micosyen.com/)

Sou politeísta

Os deuses são aquilo que os homens não podem controlar.

Mas em sua busca de controle,
os homens estão matando os deuses,
consumindo, consumindo,
sem saber que matando os deuses,
eles vão matando neles
mesmos algo de divino.

E certamente algo de humano.